O fogo da memória

 

Bons tempos aqueles. Andava eu pelo país com uma amiga a recolher histórias de gente boa para publicar numa revista. Ela escrevia, eu fazia os desenhos que as recordações alheias me sugeriam.

Daquela vez, em Guimarães, descobrimos um antigo bombeiro. Foi o que quis desde pequeno. Só conseguiu ser pedreiro: aos 8 anos já estava na construção da igreja da Penha.

Mas a gente tanto persegue os sonhos que os agarra.

Aos 18 conseguiu. Era o nº 14 na escala. Quando tocava a fogo, largava o ofício de pedreiro e ía como uma flecha. O Catorze não tinha medo de nada. “O nosso ofício era morte ou gloria”.

OCATORZE

Fura-vidas, atravessou a II Guerra a ganhar dinheiro com os pregos. Serralheiro, ferreiro, feirante, teve trabalhos vários. Mas bombeiro foi a vida inteira. 58 anos contados e medalhados, quadro honorário dos Voluntários de Guimarães.

Os pais não o puseram na escola, mas acha que ser analfabeto nunca lhe prejudicou a vida: ninguém o enganava nas contas. Só não chegou foi a comandante dos bombeiros.       

Quando o escutaram a minha amiga e o meu caderno, tinha noventa anos.

Tenho saudades de ser um homem feliz com as mulheres. Só estou arrependido de estar velho”.

 

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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8 respostas a O fogo da memória

  1. EV diz:

    Ó menina Tê, o que gosto dos seus bonecos! Por mim pode repeti-los todinhos… E os cadernos de viagem também – ainda tenho nas minhas imagens, muito bem roubados do ETGM, perdão, muito bem guardados, bonecos seus.

  2. Beatriz Santos diz:

    também gostei do azulejo

  3. Mario diz:

    Se o arrependimento matasse nao tinha durado ate aos 90! 🙂 Eu também me arrependo de estar a ficar velho, vou ja ao confessionario tentar recuperar os anos perdidos

  4. Que delícia de post. E que homem tão cheio de méritos que, afinal, fez logo ali duas mulheres felizes.

  5. Pedro Bidarra diz:

    Que post e que homem.

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