O sapateiro da rainha

 

Encontrei um caderno de desenhos. E os esboços devolvem-me do século passado a cena daquela tarde de Verão: duas raparigas a escutar um velho numa penumbra fresca de oficina.

A. EETsapateiro joaquim tc 1998

Os riscos de lápis mostram sapatos, um gato preguiçoso, o banquinho com raízes, o mapa de linhas de quase cem anos que conduzem aos olhos dele. O rosto lembra o de Borges (terão todos os cegos alguma semelhança?) e a voz suave forma tiradas de escritor, ele que pouco teria escrito na vida além das contas da sapataria.    

A. BANQUINHO TRONO EET

Conta coisas do tempo em que se fazia testamento por uma ida a Lisboa. 

Em idade moça ninguém corria mais do que ele. Atravessou o século XX  “como um relógio que nunca precisou de corda”. Sei que disse assim, registei frases soltas enquanto lhe captava os movimentos. Admirava-se de não ser preto, por ter sido criado a sopinhas de café.  E nunca quis ser operado ao ouvido por recusar uma anestesia “ali, mesmo ao pé do pensamento”. Irresistível fixar o que dizia — palavras muito usadas pareciam roupa nova.      

A. GATO

O arranjo era este: a minha amiga escrevia, eu ilustrava (que alívio, nunca gostei de escrever. Quem me dera conseguir falar do mundo só por desenhos). 

Uma revista tinha-nos aceite a proposta: escrever sobre as pousadas portuguesas através da voz e ilustração de uma figura da terra, de alguma forma ligada à história do edifício. Cruzar o herói-da-vila com o castelo-herói.   

A. RAINHA ISABEL EET

E aquela tarde escorreu encantada em lápis de cera e contos de homem antigo. 

Mal começara a mexer e já fazia sapatinhos para bonecas. Calçou Estremoz inteira durante noventa anos. O castelo da Rainha Santa era a casa mais bonita e ele, respeitador, nunca lá tinha posto os pés.

Como fazer a ligação entre o sapateiro e a pousada? É ele que a encontra, linha contínua a saltar idades: se tivesse nascido no tempo da Rainha, tinha-lhe feito uns sapatos.

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Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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6 respostas a O sapateiro da rainha

  1. Beatriz Santos diz:

    mas esta prosa não desmerece dos desenhos que, sim, estão lindos

  2. EV diz:

    Menina Tê, eu que gosto tanto dos seus bonecos, tinha anotado desta vez, aquela frase, “E nunca quis ser ope­rado ao ouvido por recu­sar uma anes­te­sia ali, mesmo ao pé do pen­sa­mento”, que é literatura feita para um futuro que, veja como são as coisas, já chegou. Que bonito tudo isto. Merci.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Uns sapatinhos deste sapateiro era mesmo o que eu estava a precisar.

  4. Iriam durar uma vida, Manel, isso é garantido 🙂

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