O Sueca Channel

O Marco Dias, director de arte, ilustrador e outras coisas, encomendou-me um texto para acompanhar o seu projecto Sueca Portugal. Um conjunto de ilustrações — cartas — sobre a sueca que se joga nos jardins e Lisboa; jardins que ele frequentou assiduamente como jogador e mirone. Disse-me que o texto podia ser o que eu quisesse: um comentário curatorial, uma lauda ao autor ou uma ficção, se estivesse para aí virado. Eu estava.

o artista e o valete

O artista e o valete

O SUECA CHANNEL

1.

A ideia de um canal de sueca foi brilhante, mas, como acontece a todo o brilho nesta terra baça, foi coisa fugaz que se apagou no cinzento dos dias. M. ainda tentou o subsídio, afinal a ideia tinha interesse público ainda que não tivesse público interessado — um paradoxo que nunca obstou à esmola institucional — mas não encontrou quem quisesse ver naquilo cultura. Também procurou o patrocínio, mas não havia pater que perfilhasse o empreendimento. Ainda assim, casmurramente, manteve o canal durante quase um ano e meio no You Tube emitindo muitas das grandes partidas de sueca da capital. E conseguiu seguidores, não só entre os suequeiros dos jardins de Lisboa, como no Brasil e em Angola. Uma viagem ao triângulo da língua chegou a ser planeada para contactar suequeiros e gravar algumas partidas com os craques do Rio e de Luanda. Depois, abruptamente, desistiu. O Sueca Channel foi fechado e M. nunca mais falou do assunto. Quando se lhe perguntava (ainda se pergunta, embora agora frequente menos os jardins), M. dizia-se assoberbado de trabalho, ou que não havia dinheiro nem paciência, ou que ninguém queria saber da ideia. Mas mentia: a razão não era o guito.

Foram os acontecimentos do dia da rumorosa partida no Jardim da Parada, entre o Mini e o seu parceiro, e o Irmão e a Irmã — rumorosa à posteriori, porque durante aquela tarde e noite não se ouvia nem moscas — que ditaram o fim do canal. Foi esse o dia em que M. filmou pela última vez. As imagens que captou já não as editou nem postou online, apesar de ter sido o melhor e mais renhido jogo de sueca de que há memória no jardim. Quando os fãs, depois de uma espera ansiosa para rever a partida em que o grande Mini derrotou os Irmãos, lhe perguntaram a razão pela qual o épico embate não era emitido no canal da sueca, M. lamentou-se com problemas técnicos. Disse, então, que não conseguira gravar tudo, que faltavam imagens e logo estranhamente nas duas câmaras usadas. O que não deixa de ser verdade, embora, mesmo assim, a reportagem pudesse ter sido editada e emitida; mas teria sido ainda mais estranho do que a partida em si mesma. O que aconteceu, na verdade, foi que nem tudo o que M. e o seu assistente viram pela lente, e que os que lá estiveram viram pelos próprios olhos, ficou gravado nos discos. Dois dias depois da partida, M. fechou o canal.

2.

O grande Mini é o melhor jogador de sueca dos jardins de Lisboa, o que faz dele o melhor jogador de sueca do mundo. Ganha cerca de 90% dos jogos, quer tenha ou não tenha jogo. Conta as cartas, joga com a memória, nunca faz batota e não fala. O seu parceiro desse dia também era um grande jogador, mas não tão grande como o grande Mini.

Já o Irmão e a Irmã são uma parelha mais insondável. M. já ouvira falar deles, como todos os que frequentam os “estádios” de sueca nos jardins da capital, mas poucos lhes deitaram alguma vez os olhos. Aparecem de quando em quando num jardim, desafiam um par — se o par não estiver disponível vão-se embora e voltam noutro dia — jogam duas ou três partidas e invariavelmente ganham. Depois desaparecem para voltar só meses mais tarde, noutro jardim, repetindo o processo. A idade, dizem, é jovialmente indefinida, qualquer coisa entre os quinze e os vinte cinco anos; talvez por serem ambos magros e céreos, imberbes e de cabelos seráficos: o dele amarelado e o dela, de tão branco, a lembrar prata. São lindos, diz-se. Sobretudo ela, dizem os velhos. Ainda assim o aspecto geral da fratria é um pouco tétrico: às vezes são descritos pela malta do jardins como “tipo, saídos de um filme de terror daqueles americanos”. Serem gémeos também é coisa que se diz do Irmão e da Irmã, mas ninguém sabe ao certo. M. nunca os tinha visto antes daquele dia. Certo é que aparecem nos jardins e pedem para jogar sempre com os invencíveis. Nunca pedem para jogar com os mortais comuns, apenas com os semi-deuses da sueca, os que nunca perdem, os maiores, os grandes como o Mini. E é sempre o irmão que pede; a ela nunca se lhe ouviu a voz e há quem diga que é muda. Entre eles não há troca de palavras, nunca se entreolham, e quando o fazem há desprezo no olhar, como se estivessem obrigados a jogar um com o outro. Apesar dessa aparente má vontade, são parceiros terríveis que jogam como se conhecessem as cartas todas, até as dos adversários. Não há memória de alguma vez terem perdido uma série e não é raro darem pentes aos adversários. Ganham sempre. O Irmão e a Irmã são famosos por isso: aparecer, ganhar e desaparecer outra vez. Depois dos jogos, como crianças que têm hora para estar em casa, retiram-se tão calados como chegaram. Não se sabe onde moram, nem que nome têm. São o Irmão e a Irmã. No Jardim da Parada apareceram uma vez, há um ano ou dois, e nunca mais. M. queria muito filmá-los para o canal, mas nunca teve essa sorte. Mesmo quando tentou falar com quem tinha jogado com eles — com a ideia de fazer uma reportagem tipo Irmão e Irmã: Mito ou Realidade? Os Yetis da Sueca? ou coisa que o valha — não conseguiu encontrar quem os tivesse defrontado; ou melhor, os que tinham jogado com eles já tinham morrido, como de resto acontece, inevitavelmente, a muitos dos melhores jogadores de sueca dos jardins de Lisboa. Na altura M. nada mais pensou sobre o assunto.

3.

“O Maracanã está cheio!”, ouviu-se no terceiro andar da Rua Tomás da Anunciação, por cima do ruído dos carros e do grasnar dos patos-reais. M. não viu se estava ou não estava cheio, as copas dos lódão-bastardo na orla do jardim, a sequóia e os metrosideros não lhe deixavam ver as mesas, mas a comoção que sentiu vinda do jardim chamou-o. Era para isso que tinha criado o canal, para dias como este em que o “Maracanã está cheio”.

A ideia inicial, e mais ambiciosa para o Sueca Channel, era utilizar webcams nas árvores (suecacams, chamava-lhes), como se fossem olhos de pássaro sobre as mesas, para dar a vista geral do jogo e da assistência e para possibilitar a M. monitorizar a acção do seu escritório. Mas como não havia guito, limitava-se a ser avisado pelo rumor da rua e a correr, escada abaixo, de câmara em riste quando este o despertava. M. usava uma câmara, às vezes duas — dependia de conseguir convocar um ajudante, normalmente um estagiário que arrastava consigo, dizendo-lhe que era para aprender a olhar — e filmava como se fosse um espectador espreitando as cartas, do mesmo modo que a malta assiste à volta da mesa, ora fixando-se atrás de um jogador, e assistindo só ao seu jogo, ora dando voltas e espreitando o jogo de cada um, descortinando, aqui e ali, uma carta, uma jogada, uma argolada. Escusado será dizer que era atrás do Mini que se concentrava, quase sempre, o maior número de mirones. Afinal, e como já foi dito, o Mini é o maior.

Nesse dia, quando M. acudiu ao rumor da rua e chegou ao Jardim da Parada, já o Irmão e a Irmã estavam sentados à espera que o Mini chegasse com um parceiro.

A sueca joga-se com dois pares de almas e quarenta cartas (sem oitos, noves e dezes) distribuídas irmãmente pelos quatro. Quem dá, tira o trunfo. Ganha-se com sessenta e um, livra-se aos trinta — ou perdem-se dois jogos em vez de um — e é-se obrigado a assistir. A renúncia (não assistir) custa quatro jogos. E é um jogo de mudos.

Na gravação que M. e o seu estagiário fizeram, e que ele diz que apagou embora não a tenha apagado (guarda-a sagrada e reverentemente num cofre que tem medo de abrir ), a nota dominante é o silêncio: não só o dos jogadores, como o do próprio “Maracanã”. Ninguém abriu a boca durante aquelas sete partidas; nem os engraçadinhos do costume se atreveram a deixar ouvir a respiração. Só no fim de cada partida se ouve um esporádico comentário de mirone e a brisa nas árvores. De resto mais nada, apenas o baralhar das cartas e o som surdo delas a bater no tampo da mesa de pedra. Nem os pássaros se distraíram com chilreios.

O jogo teve sete partidas e todas, com excepção da última, tiveram quinze jogos, ou seja, as primeiras seis terminaram numa negra. Essas negras, todas as seis negras, acabaram empatadas: seis empates, sessenta pontos para cada par. Nunca visto! Quase todos os jogos foram ganhos com sessenta e um pontos, ou pouco mais, e praticamente com o mesmo número de vazas. Nunca se viu um jogo tão equilibrado, tão bem baralhado e distribuído, e jogado como se todos conhecessem, exactamente, as cartas uns dos outros. Pelo menos assim pareceu até à sétima e ultima partida.

Enquanto um homem jogar e ganhar, a morte não lhe toca. Esta parece ser uma convicção de quem joga nos jardins da capital. Uma convicção não dita mas sentida por quem se senta nos bancos frios com as cartas na mão. Na verdade a morte só vence os invencíveis. Os vencidos não jogam com a morte, vivem com ela e dormem com o sono que a acompanha, e essa é a diferença. Os invencíveis olham a morte nos olhos, conhecem-na, jogam com ela mas não sucumbem ao sono. E por isso tardam a ser vencidos.

Já tinha caído a noite. Tanto quanto se sabia (comentava-se entre os espectadores), o Irmão e a Irmã nunca tinham jogado tantos jogos e, sobretudo, nunca tinham ficado a jogar até tão tarde. Normalmente despachavam os adversários com limpeza e recolhiam, aonde quer que recolhessem, antes da noite aparecer no jardim. Mas naquele dia, quando se iniciou a sétima partida, já era noite. Ao nono jogo, quando a série estava empatada quatro a quatro e não dava mostras de vir a ser diferente das outras, os gémeos renunciaram. Foi o Sono que os traiu. O resultado foi quatro jogos, meio pente para o grande Mini e o seu parceiro.

— Passarinho estúpido e sonolento — disse a Morte irritada.

— Nuvem negra — respondeu o Sono, mole e indiferente. E sem mais palavras os gémeos saíram da mesa e abandonaram a Parada para irem ter com a Noite.

4.

Só o grande Mini e o seu parceiro não falam desta história. Para eles é como se não tivesse acontecido e, embora não neguem os factos, mantêm-se mudos acerca deles. Mas conta-a o M., conta-a o seu assistente e toda a gente que viu o jogo naquela tarde memorável. Muito insisti eu, que também lá estava nesse dia de Maracanã no Jardim da Parada, para que o M. mostrasse as imagem das sete partidas entre o Mini e os gémeos, para que as editasse e emitisse no canal; no mínimo para que me deixasse vê-las. Mas ele não o fez. Mais tarde, anos mais tarde, quando voltei ao assunto, disse-me que ninguém acreditaria no que lá se via, ou melhor, não via. Ninguém acreditaria na ausência do Irmão e da Irmã, os gémeos que toda a gente tinha visto no jardim. Ninguém acreditaria que aquelas duas cadeiras vazias, a jogar com o Mini e o seu parceiro, não era um truque feito por ele em pós-produção. Foi o fim do Sueca Channel.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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14 respostas a O Sueca Channel

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Foi a melhor partida de sueca a que já assisti. Muito bem jogado.

    • Pedro Bidarra diz:

      Foi tudo inspirado nas ilustrações e nas histórias que o Marco me contou. Quando há grandes partidas no jardim da Parada, dizem que o Maracanã está cheio. E está, cheio de personagens incríveis que o Marco conhece. o Mini, por exemplo, existe e é considerado o maior jogador da Parada. Não se chama Mini, mas Nini. Mas mini dava-me mais jeito.
      Fiquei com saudades de jogar sueca, coisa que não faço desde os tempos do meu avô

  2. Mário diz:

    Preso ao banco do jardim até ao fim, final surpreendente. Muito bom.

    • Pedro Bidarra diz:

      Sempre que os deuses entram em histórias humanas acontecem coisas surpreendentes. Os deuses são um bom truque narrativo

  3. EV diz:

    Que texto bem pensado, bem escrito, bem caçado. Fartei-me de gostar. E tenho uma grandessíssima curiosidade de ver aquele baralho.

    • Pedro Bidarra diz:

      As ilustrações são muito bonitas e têm uma qualidade de mirone. Vou-lhe pedir ao Marco para as deixar postar aqui. Obrigado.

  4. Que filme, Pedro! Um suspense que me deixou baralhada até ao fim. Quero assinar este canal já!

    • Pedro Bidarra diz:

      É ir fazer uma reportagem ao Jardim da Parada com o Marco Dias. Ele apresenta-lhe os personagens. Só não garanto que encontres o Irmão e a Irmã

  5. vasconcelos diz:

    bom texto

  6. llopes49 diz:

    Danado de BOM ,e muito “nosso” à Portuguesa.Gostei.

    • Pedro Bidarra diz:

      Obrigado pelo BOM. A pessoa nunca sabe …
      A Sueca é um jogo de cá, português. Mas joga-se também no Brasil e em Angola. Agora porque se chama sueca é que não consegui saber.

  7. Maria João Freitas diz:

    Dr. Bidarra,
    Apesar de estranho, este belo texto fala de uma realidade que me é familiar – ou melhor, unheimlich, como diria o Dr. Freud.

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