O Verão e o Inverno

Nunca se nasce só uma vez. A segunda vez que eu nasci, aos cinco anos, quando, em Luanda, passei de beirão gordinho a um tísico e rijo filho do colono, mudei de mundo. Com o sol, com o desvairado sol, entrou-me pelo tenro crânio o som do batuque, tambores e dikanza (há lá mais vanguardismo musical do que o som de selva da dikanza?). Mesmo quando pensava que não ouvia, por mais Emissora Oficial que os pais escutassem, do musseque chegavam ecos, este som perdido.

Na adolescência, foram os quintais de madeira. Sentei na esteira, embebedei, vi a faca do cabo-verdiano no escuro da briga, a rede do pescador na Ilha e na Restinga, um mundo que existia e já não existia. O grande mundo já ia, e nós sabíamos, em beatles e rollling stones, em Vietnames, Deleuzes e Foucaults.  E o nosso pequeno mundo ainda era de canção de roda, fogueira dolorosamente nostálgica, beco sem saída de velhas falando conversas antigas. Estariam ainda vivas as velhas? Ou eram só fantasmas do meu morro da Maianga?

Que raio de eu serei eu, que retornei a este Inverno como um estranho e como um estranho hei-de partir. Tenho o sol tropical arrumado num esconso da minha cabeça e, agora, caminho pela estrada europeia de neve, a desolada sombra da lua por companhia. Boa Noite, Gute Nacht, antes que venha a gélida madrugada e todas as portas em silêncio se cerrem.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a O Verão e o Inverno

  1. M. diz:

    Que bonito…
    Não eram fantasmas, foi magia.
    E é dikanza e não humbu (como escrevi algures lá para baixo).
    Ainda os oiço, aos batuques de sábado à noite. Ou dos óbitos. Gostaria de dizer que eram ‘canções de embalar’ meninas nos seus lençóis mas já os sentia como recados, cadenciados, de que havia outro mundo. Próximo. Nosso. Deles. Diferente e inquietante.
    Que bonito, repito.

  2. adelia riès diz:

    Tal e qual. Passei três dias e outras tantas noites ou foram mais pelo luto de meu Pai.
    Fica.

  3. Adoro música angolana e, a minha curiosidade sobre aquela terra linda que, espero conhecer, ainda aumentou com a sua prosa e as músicas que acompanham a leitura.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Obrigado. É claro que, hoje, não é a mesma terra, mudou muito – tinha de mudar, claro.

  4. Seremos deuses de destinos ardentes, talvez sem coroa, cairemos de pé, como os gatos, rebolaremos como os cães (dentro de uma perspetiva filosófica zoológica):

  5. EV diz:

    A melancolia é triste. E bela.

  6. Pedro Bidarra diz:

    Pode ser que haja uma terceira renascença. Soalheira.

  7. Jaime Duarte diz:

    MSF.Tão igual a si próprio…que o inverno fique longe.

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