Peluche – uma lição singela

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Havia um peluche, eu sei que havia. Que fazia ele ali, com o seu ar parado mas lânguido, como se tivesse acabado de ter um prazer chocante, não sei. Sei que havia um peluche.

Os peluches são brinquedos com os quais fantasiamos. O nosso urso, o nosso cão, o nosso rinoceronte, a nossa girafa. Por vezes damos-lhes nomes – Gigi, Tótó, Nanuco – outras temos com eles relações silenciosas. São sempre cúmplices.

Um dia um amigo meu confessou-me ter estado apaixonado por um peluche entre os 11 e os 13 anos. A princípio não acreditei. Porém, dias depois lembrei-me de um urso de pelo castanho, forrado de palha, que a minha avó teve de coser inúmeras vezes porque com os tratos que lhe dava a palha saía-lhe pelas patas, onde se desfazia o pelo que o envolvia. Era um urso que me fazia mais companhia que a maioria das pessoas da minha família. Tive um sobrinho que ainda brincou com ele, já todo cosido, mas imaculado.

Lembro-me da menina – uma boneca de pano revestida de algodão – de uma filha minha. Tinha duas fitinhas de seda que ela acariciava até dormir. Durou-lhe até aos 10 anos, quando a perdeu num hotel em Florença.

Ninguém é verdadeiramente homem ou mulher crescido, responsável, maduro, se na infância não teve um peluche ou um boneco a quem se entregar.

Foi essa a lição do meu amigo.

É esta a história que vos quero contar.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a Peluche – uma lição singela

  1. A minha filha Rita tinha dois peluches que iam atrás dela para toda o lado. Um dia, em Coimbra, houve um que se perdeu. Foi numa esquina da rua da Sofia. Após três horas de frente, trás e trás para a frente, desistimos e demos o boneco como missing in action. Foi o maior drama da primeira infância. O outro ainda hoje, 20 anos depois, está ali, os velhos cheiros, cerzido, remendado.

    • Henrique Monteiro diz:

      Podes não acreditar, mas houve troca de correspondencia com o hotel com vista à recuperação da boneca…

  2. Eu devo ser mais que responsável e madura, os meus mais fiéis peluches nunca me abandonaram. Ainda hoje há crescidos que acham estranho que eu tenha a guardar-me a casa…uma raposa, um kanguru e um pinguim. Mas o certo é que eles se mantêm impávidos e serenos no seu posto. E nem reclamam se me esqueço de lhes mudar a água.

  3. Beatriz Santos diz:

    Pronto. Precisei esperar até hoje para entender esta minha infância que não morre nem por nada e assim me atarda responsabilidade e madurez.
    Mas por que é que não me deram a bodega de um peluche, um bonequito qualquer que fosse, uma matrafona, sei lá.

  4. Nem cresce se não for a Calcutá:

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