Qual Cândido de Voltaire

Marc Ghagall – “Au dessus de la ville”, 1915. Nasceu em Vietebsk a 7 de julho de 1987 e morreu em França a 28 de Maio de 1985. Foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo/francês.

Marc Ghagall – “Au dessus de la ville”, 1915. Nasceu em Vietebsk a 7 de julho de 1987 e morreu em França a 28 de Maio de 1985. Foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo/francês.

Pensamento – “A mais preciosa dádiva é o livre-arbítrio. E é sempre isto que o próximo mais deseja subtrair ao vizinho.”

Facto I: o acontecido ao Charlie Hebdo. Vozes se alevantaram: _ “Estavam a pedi-las!”

Facto II: o L. M., bom amigo, propunha-se ler calmamente a revista do semanário, refastelado no altar da «casinha». Metade do serviço aviado, abonou-se de papel para a limpeza intermédia que depois largou na cova do altar. Continuada a leitura enquanto mais não chegava, fez um golpe no dedo ao desfolhar o papel. Hipocondríaco, alcançou álcool e algodão, não entrasse “microbicharada” pelo golpe mínimo, quiçá infetando, pior, alastrando numa septicemia mortal. Tratou a ferida e remeteu o algodão à companhia do papel e do despojo intestinal. Acendeu um cigarro e continuou a leitura. Não havendo modo do resto arribar, lançou a beata para a cova. Só deu pela coisa quando o traseiro e os apêndices passaram de quentinhos a pasto de chama. Levanta-se de supetão agarrado ao essencial, desequilibra-se e bate com o cocuruto na esquina da bancada. Vai de charola para o hospital com as pudendas partes queimadas e a cabeça rachada. The End.

Livre-arbítrio: “possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante.” Isenção de condicionantes nos nossos atos, existe? Determinismo ou liberdade de escolhas? Sobre isto há muito a Filosofia anda às turras. Facto é a sociedade de hoje resultar do livre-arbítrio passado e de cada um se defrontar com os resultados das ações. Os membros idos e vivos das sociedades terrenas fizeram menos do que deviam em benefício do bem comum. Miséria, desemprego, violência não existiriam se outro tivesse sido o comportamento coletivo. Esta realidade permite a milhões o livre-arbítrio? _ Jamais! Assim sendo, a conceção determinista, segundo a qual todos os acontecimentos são consequência de circunstâncias anteriores, ganha terreno. Mas não foi o L.M. que decidiu desinfectar a ferida? E fumar? E ir para a «casinha» ler o jornal? Porém, foi à «casinha» sob imperiosa necessidade física que do arbítrio não dependia. É hipocondríaco sem que num amanhecer rezingão tenha decidido: _ “Vou tornar-me um apanhado por maleitas!”.

Num tempo soft & light como o nosso vinga o soft determinism (aceita a paridade do determinismo com a liberdade de escolhas). E trago a estória de Voltaire sobre o peregrinar no mundo de um sujeito chamado Cândido que decidir a vida não conseguia. O livre-arbítrio existe mas está arredado da chacina em Paris.

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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2 respostas a Qual Cândido de Voltaire

  1. Do livre-arbítrio, enfim, um beau mot. Para nós, escravos, só conheço santo Anselmo ou santo Agostinho como a capacidade de pecar ou não pecar. Mas esses são tempos idos, antes de Edward Bernays ou Walter Lippmann, agora, nós temos que seguir a opinião pública e recitar as ladainhas que vemos na TV: barbárie, atentado à liberdade de imprensa, terrorismo, selvagens, e outras adjetivações que doutos senhores dizem na TV e cof* cof* nos jornais (fazendo uma declaração de intenções: prefiro ser morto pelo presidente Obama, mil vezes, do pelo Estado Islâmico, ele, Obama, é tão fofinho que me sinto uma Beyoncé). No entanto, chorei quando vi na manif em Paris o nosso Passos Coelho relegado para trás do Samaris, Vergonha! Passos devia estar na fila da frente, ao lado de Hollande, ou pelo menos atrás de Cameron, na linha dos seus eflúvios de metano, pelo menos, por causa do Tratado de Methuen. O que nos fizeram, povo que tanto deu ao mundo, é uma desconsideração e uma canalhice, um homem que perde cabelo por nós, merece destaque. Parece que esse patife do Voltaire ainda está vivo, invectivando contra nós, acusando-nos de obter a clemência de Deus pela fogueira.

    En antes fui domador
    aura voy con la carreta

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Prefiro o Chagall, e pairar livre e solto sobre um mundo que se satura de explicações e argumentos…

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