A vasta boca pintada

Sylvie Guillem, Richard Avedon

A modelo é Sylvie Guillem. O fotógrafo é Richard Avedon

– Que acha o senhor? – Voltou-se e viu uma mulher nova, bastante mais baixa do que ele, e por momentos pensou que ela era gorda, até ver que não era gorda, mas apenas a articulação profundamente feminina e delicada, simples, vasta, das éguas árabes – uma mulher com menos de vinte e cinco anos, num vestido de algodão estampado, de rosto que não se julgava bonito e não usava pintura a não ser na vasta boca pintada, com uma difusa cicatriz numa das faces, que ele reconheceu como queimadura antiga, sem dúvida ocorrida na infância.

Palmeiras Bravas, William Faulkner
(tradução de Jorge de Sena)

Houve um tempo, ou havia uma literatura, em que a irrupção da mulher era uma aparição. Uma coisa delicada e animal, entre o comércio e a indústria do algodão estampado e a animalidade nervosa e elegante de éguas árabes – e o que era, então, um homem? Um puro sangue lusitano, um simétrico lipizzzano ou um frísio de belo trote?

Voltaremos a encontrar, e em que páginas, esse rosto convicto, de vasta boca pintada e cicatriz aventureira?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a A vasta boca pintada

  1. riVta diz:

    não sei. acho que lhe falta uma perna. não que a perna que lhe falta, faça falta.não sei.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Como no cinema. Mas penso que sim, Volta-se sempre.

    Ps: a linda Sylvie Guillem anunciou que se retirava no fim do ano passado. Não conhecia essa photo do RA – levou a retina bem cheia o dr. Avedon…

  3. adelia riès diz:

    Magnifique. Les trois. Le Texte, la Photo et le Photographe.

  4. Beatriz Santos diz:

    Bonitos quer a foto quer o texto. a posição da modelo parece-me impossível; não estará deitadinha a armar de grande ginasta? Parece-me hipótese nula, observando melhor.

    É. Tudo se vulgarizou. Também a mulher, na literatura. Ou tudo continua como sempre foi e a mente humana vulgarizou. Estou fortemente inclinada para a última hipótese, oxalá o resultado não seja um trambolhão

  5. M. diz:

    absoluto movimento…

Os comentários estão fechados.