É uma espécie de fadismo

 

Cães de palha eram usados em rituais chineses como ofertas aos deuses e tratados com toda a reverência. Quando os festivais acabavam, eram amachucados e largados num armazém até ao festival seguinte. "O céu e a terra são impiedosos e tratam a miríade de criaturas como cães de palha" Lao Tse

Em rituais chineses eram reverentemente utilizados, como ofertas aos deuses, cães e palha que, quando os festivais acabavam, eram amachucados e largados num armazém até ao ano seguinte.
“O céu e a terra são impiedosos e tratam a miríade de criaturas como cães de palha” Lao Tse

 

O livro começa assim:

“Hoje, a maior parte das pessoas pensa pertencer a uma espécie que é dona do seu destino. Isto é fé, não é ciência. Ninguém fala de um tempo em que as baleias ou os gorilas serão donos dos seus destinos. Porquê, então, os humanos?”

E mais à frente, a concluir o nº1 do primeiro capítulo, Humanos, continua:

” Humanismo pode querer significar muitas coisas, mas para nós significa uma crença no progresso. Acreditar no progresso é acreditar que, pela utilização dos novos poderes trazidos pelo crescente conhecimento científico, os humanos se conseguem libertar a si mesmos dos limites que emolduram as vidas dos outros animais. Esta é a esperança de quase toda a gente nos dias que correm, mas é uma esperança infundada. Porque embora seja muito provável que o conhecimento humano continue a crescer, e com ele o seu poder, o animal humano continuará o mesmo: uma espécie altamente inventiva que é também uma das mais predadoras e destrutivas.
Darwin mostrou-nos que os humanos são como os outros animais, os humanistas alegam que não são. E insistem que utilizando o conhecimento humano conseguiremos controlar o ambiente e florescer como nunca. Ao afirmá-lo, eles renovam uma das mais dúbias promessas do Cristianismo — que a salvação está ao alcance de todos. A crença humanista no progresso é só uma versão secular da fé cristã.
… [Assim] os ensinamentos de Darwin foram virados do avesso e o erro cardinal da cristandade — que os humanos são diferentes de todos os outros animais ganhou um novo fôlego.”

John Gray é um filósofo. Os filósofos, quando os comecei a ler — ao mesmo tempo que estudava música —, lembravam-me os grandes compositores porque lhes reconhecia como maior qualidade, ou maior talento, o virtuosismo. Os grandes filósofos são virtuosos da lógica, uma espécie de atletas do pensamento dotados de uma facilidade de raciocínio que impressiona e lembra a de outros artistas; têm o domínio da lógica como os atletas têm do corpo e os pintores (quando os havia) tinham do traço e a da luz. O grandes filósofos são prodígios, como Mozart era um prodígio, seres que desde pequenos parecem dominar, sem esforço, as linguagens em que se exprimem.
Quando estudava História da Música apaixonava-me pela linguagem e pelos desenvolvimentos de cada época, e reverenciava os expoentes máximos daquele tempo como aqueles que tinham conseguido chegar à verdade, ao zénite da criação. Foi assim que tive o meu período Palestrina, depois de se ter estudado canto Gregoriano e os primeiros passos da polifonia durantes as Ars Antiqua e Ars Nova. Quando se ouve Palestrina, e se estendem as complexas regras da polifonia, descobrimos um sistema tão lógico que acreditamos que a perfeição foi atingida ali. Mas, com cada erro, regressão e evolução que se segue — regressão, evolução são apenas sinónimos de movimento — chega-se a outra forma musical que também é sentida como o zénite, a verdade. Haverá maior perfeição que Bach? Haverá maior verdade que o Cravo Bem Temperado? Será possível fazer melhor? Bach, com a sua música, anuncia Kant. A música de Bach, e a experiência estética que experimentamos, derrama da razão. O virtuosismo de Bach é o virtuosismo da razão, da lógica; como em Kant. Quando se lê filosofia, cronologicamente, passa-se o mesmo e, quando chegamos a Kant, depois da experiência “estética” que é a sua leitura, poderíamos, também, fazer as mesmas perguntas: Haverá maior perfeição? Será possível fazer melhor? Mas depois vem Mozart e Haydn; e Beethoven, e Schumann, e Schubert; Mahler, Debussy, Schoenberg, Stravinsky; como vêm Schopenhauer, Nietzsche, Marx, Heidegger, Wittgenstein, e, com todos eles, novas e virtuosas experiências estéticas em que queremos acreditar.

Straw Dogs, do filósofo John Gray, foi uma dessas experiências estéticas. O raciocínio é aqui exercitado numa crítica à ideia de vontade e livre arbítrio e ao humanismo, que ele, virtuosamente, demonstra ser apenas uma versão secular do cristianismo, mais uma ilusão na História do Pensamento que é uma história de alucinações intelectuais.
John Gray fala de grandes filósofos e, como grande filósofo, expõe as falhas, os vícios e as ilusões que vislumbra nos vários raciocínios, tornando-os datados, como Haydn e Mozart tornaram datado o barroco. Mas, como há verdades e ideias a que não se chega, nem se entendem apenas pela razão, há, neste pequeno livro, um espaço enorme dedicado aos mitos, à ficção e à poesia; não como meras ilustração de argumentos, mas como revelações e premissas. John Gray reconhece, implícita e até explicitamente, que há coisas, verdades, pensamentos e realidades que só podem ser expressas e apreendidas pela ficção. Depois de citar um trecho do Livro de Desassossego, Gray escreve:

” Bernardo Soares era uma das muitas identidades imaginárias assumidas pelo grande escritor português Fernando Pessoa. Algumas verdades não podem ser ditas excepto pela ficção.”

Em cada capítulo há citações dos grandes filósofos ficcionistas — Homero, Dostoievski, Conrad, Fernando Pessoa, D. H. Lawrence, W. Gibson, Ballard, W. Golding e muitos outros que não me cabem na memória — aqueles que revelam a verdade inventando-a. Só por isso já vale a pena.

Hesitei em falar deste livro. Dizer que este livro, de todos os livros que li até hoje, foi o que mais conscientemente mudou a minha vida, é expor intimidade; coisa a que sou avesso. Mas faço-o, como qualquer prosélito de qualquer religião, por achar que os meus amigos o deviam ler; ainda para mais agora, que estamos perto de atingir um tecto no desenvolvimento social e que se alinham no horizonte, como sempre se alinham, novas utopias que mais não são do que novas versões dos mesmos ideais baseados na crença que somos animais especiais, donos do nosso destino; quando, em boa verdade, somos apenas uma espécie que se acha divina, animais que se julgam deuses.
Já ofereci este livro a amigos e amigas e ninguém ficou tão impressionado como eu. Achei que o problema era meu, mas vim a descobrir que não era, e que não havia sequer um problema. Descobri que é difícil, para a grande maioria das pessoas, entender e viver o pessimismo como uma força; e descobri como é difícil sair das cavernas onde fomos educados e nos sentimos confortáveis e quentinhos; e onde, ao tomarmos a nossa sombra, que a luz projecta na parede, como magia, e ao darmo-nos conta da similaridade entre ela e nós próprios, tendemos a achar que somos quase divinos, quase iguais à sombra que entendemos como um vislumbre de deus.
Todos os meus amigos (como eu próprio) foram educados na fé no progresso, na ideia que o homem, com o seu infinito engenho e capacidade intelectual, há-de conseguir vencer a tragédia, a natureza e a morte. Eu também fui. Eu também fui crente na mudança, no progresso, no fazer melhor, no mudar “as coisas”. Também eu fui devoto da acção durante grande parte da vida, esquecendo-me, e reprimindo até, a minha natureza que é a de homo ludens. Mas, num dia de Janeiro de 2003, chegou-me o “Straw Dogs” a casa e, aos poucos, a minha vida mudou. E mudou porque, paradoxalmente, deixei de tentar mudá-la.
Comprei o livro em 2003 depois de ter lido uma lista daquelas que em Dezembro nos dão conta dos melhores livros do ano. Um deles era o “Straw Dogs”, eleito o melhor livro do ano por uma multidão de iluminados, entre eles J.G. Ballard de quem sou fã e que, sobre o livro, escreveu:

“Este poderoso e brilhante livro é um guia essencial para o novo milénio. Straw Dogs desafia todas as nossas convicções sobre o que é ser humano, e, convincentemente, mostra que a maior parte delas são ilusões. Quem somos e porque estamos aqui? As respostas de John Gray chocarão a maior parte de nós, profundamente.”

Fui a correr comprá-lo, li-o e descobri novas cavernas. Depois do o ter lido trabalhei muito, ganhei muito dinheiro e tive sucesso; depois perdi-o quase todo, o sucesso e o dinheiro; depois fui infelicíssimo; depois divorciei-me; depois voltei a ser feliz até voltar a ser infeliz; depois deixei de trabalhar, como trabalhava, e passei a dedicar-me a outros trabalhos; escrevi; depois amei de novo e odiei de novo; depois entediei-me como um peru; depois deprimi; depois comi e bebi; depois viajei; depois casei-me; depois ri; depois fiquei doente e tive dores… Enfim, desde que li o Straw Dogs que faço o que tenho que fazer, como aconteceria se não o tivesse lido. Talvez porque a sua grande lição é que não há salvação. Somos o que somos. Não há como escapar da nossa natureza. É uma espécie de fadismo. Já perto do fim, John Gray escreve:

“Hoje, uma vida boa significa fazer pleno uso da ciência e da tecnologia — sem sucumbir à ilusão de que elas nos tornarão livres, razoáveis ou mesmo sãos. Significa procurar a paz — sem a esperança num mundo sem guerra. Significa acarinhar a liberdade — sabendo que ela é apenas um intervalo entre a anarquia e a tirania.”

Para mim chega.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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14 respostas a É uma espécie de fadismo

  1. Pedro, fiquei com pena de não o ter na minha editora. Belissimamente apresentado. Em 2008, traduzimos-lhe “A Morte da Utopia”. Ninguém comprou, nem ligou nenhuma e ficámos com receio de reincidir no crime. Agora que li o que disseste, fiquei cheio de vontade…

    • Pedro Bidarra diz:

      Vale apena ler. Já editar não sei. Por cá gosta-se do que é convencional e seguro. E repetem-se as mesmas fórmulas, os mesmos pensamentos, os mesmos géneros ad nausea. Eu se fosse editor pensava duas vezes, como tu.

  2. EV diz:

    Bem trazido, Pedro. Não o li, e agora quero ler. Mas tenho A Morte da Utopia lida e relida – vendeu pelo menos um exemplar, Manuel Fonseca, e gostei de tudo, desde o pensamento às formigas.

  3. Luiz Miguel Alcide d´Oliveira. diz:

    É verdade que a Ciência é mitificada até ao ponto de se presumir que um dia Deus será apanhado de surpresa em roupão a fazer a barba. É a clássica confusão entre compreender e explicar. A ideia de que já “só falta conhecer os três primeiros micro-segundos segundos a seguir ao Big Bang”, é um exemplo paradigmático.
    Outra coisa que carece de reflexão e que sempre me preocupou é saber o que é eu represento para uma galinha.

  4. Beatriz Santos diz:

    Nunca li tal filósofo,não sou uma iluminada e há muito tempo me convenci de que o progresso tem duas faces contraditórias, que o homem pensa que domina pela determinação da vontade e da acção, mas não domina nada de verdadeiramente importante e muito menos a si mesmo.

    E isto não resulta na inanição. Mas apenas na convicção de que somos bastante menos eficientes do que nos julgamos. E menos divinos. Muito mais frágeis.

    Contudo, é indubitável que a acção e a razão nos caracterizam e o imaginário também. Mas o imaginário não é irracional, não o é a poesia, a pintura ou a música. A verdade é que, sendo específicos e presentficando o campo emotivo e da sensibilidade, não podemos situá-los fora da razão. Não salvam o mundo? Mas é só neles que se sente o sopro divino. Ou o lado melhor dos homens, que é o mesmo.

    Acho uma ideia estranhíssima a existência de um livro salvífico. Há livros que gostei de ler. Acredito que, no seu conjunto, alguma coisa me hão-de ter feito. Mas mudar por um livro…

    • Pedro Bidarra diz:

      Culpa minha que não fui suficientemente virtuoso no uso da ironia. O ponto do dizer que foi um livro que e mudou a vida foi dizer que não mudou nada porque não há salvação — como tento, sem sucesso, dizer quando descrevo a minha vidaque é igual a todas as outras. O ponto do livro (entre outros) é esse mesmo, que não há salvação. Encontra-la neste seria, por isso uma contradição em termos. Mas, como disse, não fui suficientemente virtuoso na utilização da ironia. Foi fina demais.
      Mas leia o livro. Eu também não sou iluminado e gostei

      • Beatriz Santos diz:

        não pense que não disse, porque sim. lembro-me (é mesmo de cor que, por preguiça, não me apetece lá voltar) que para o final do texto aparece isso mesmo, continuou tudo igual. e apresenta até uma série de acções que toda a gente faz durante a vida.
        É que tem vezes em que gosto de dizer coisas, mesmo que não venham a calhar.
        A sua ironia não sei se tem virtude nem sei medir-lhe a espessura, mas é ironia e perceptível.
        obrigada pela sugestão..

  5. nanovp diz:

    Há sempre o medo de viver sem a doce ilusão de que caminhamos orgulhosamente para um fim que imaginamos ser perfeito…

  6. Ora bem um texto escrito com o … com o que se deve escrever, se te lembras da conversa. Brilhante, Pierre.
    Nada há mais glorioso do que a glória de sermos incapazes de fugir ao que somos. Já Dona Agustina o disse por outras palavras, sábia como tu.

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