Estou ou não estou a beijar Marilyn?

marilyn

Como se pode ver, tanto estou como não estou a beijar Marilyn

Uma das possíveis interpretações da teoria quântica permite a quem sabe (eu copio) afirmar o seguinte:

1. Temos múltiplos “eus”;
2. Vivemos várias vidas paralelas simultâneas;
3. Estamos a fazer, nessas diferentes vidas, todas as coisas com que sonhamos, embora nenhuma delas comunique às outras as delícias da brilhante realização desses desejos.

Mas há uma grande chatice: como é que se prova isto? O mais que a teoria quântica consegue observar é que entidades como os átomos ou partículas subatómicas podem estar em vários lugares ao mesmo tempo.  Daí a deduzir-se que Alex Tsipras é uma vida paralela de Francisco Louçã, já é um tipo esticar-se um bocadinho – vá lá, numa linha Houllebecq -, muito embora já se tenha visto um electrão a passar ao mesmo tempo por dois buracos diferentes, interferindo com o seu próprio movimento como se fosse uma onda (o que não me parece que desagradasse a qualquer um dos paralelos políticos referidos).

De um objecto quântico – uma partícula, por exemplo – tudo o que pode ser conhecido é a sua “função de onda”. Na “função de onda” de um objecto quântico está contida a lista de todas as suas propriedades possíveis. Por exemplo, eu quero beijar Marilyn Monroe na boca – mesmo que ela não deixe, e não deixa, o meu beijo na boca a Marilyn é uma maravilhosa propriedade da minha “função de onda”. Mas, afinal, beijei-a ou não? Ora aí está mais um mistério quântico: quando se tenta ver se uma possibilidade é real, o próprio acto de tentar ver força o universo a escolher uma só, singular realidade. Ou seja, dá-se o colapso da “função de onda” e Marilyn não me beija. Se ninguém estivesse a olhar, tanto eu beijava Marilyn como ela não me beijava a mim.

Como ficou disparatadamente provado, percebo tanto disto como da influência da Coca-Cola na pesca do atum algarvio. Mas se a vossa curiosidade a tanto vos empurra, experimentem ler este fantasioso artigo que Philip Ball escreveu na Aeon, revista que é uma das minhas leituras favoritas, e que me faz regularmente sorrir.

Seja como for, aqui, de onde estão a olhar e a medir este mundo, é verdade que não me vêem beijar Marilyn, porém com o prodigioso auxílio de Stephen Hawkings, Bryce De Witt e outros paladinos da chamada “Many Worlds Interpretation”, já eu paralelamente comi a boca de Marilyn de beijos. Nenhum de vós viu? Pois não, mas experimentem perguntar aos vossos eus paralelos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Estou ou não estou a beijar Marilyn?

  1. EV diz:

    Tanto pretexto científico para dar um beijo na boca da menina Marilyn!

    Ps: vi a experiência dos electrões! O doc está no youtube.

  2. Todos os pre-textos são bons para pós-textos. E os entre-textos também podem fazer-nos felizes, quando a escrita é tão risonha. Entretanto, se houver beijos à mistura ainda mais 🙂

  3. nanovp diz:

    Manuel aquela fotografia põe toda a ciência em causa…não pode haver explicação apenas desejo….

  4. Beatriz Santos diz:

    Não hja enganos, a actriz mostra a simetria perfeita do eyeliner

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