Fim da Linha

 

Walter de Maria, Tula Desert

Walter de Maria, Tula Desert

O caminho estreito, esmigalhado entre o céu e a terra. Longo,  perdia-se na linha perfeita do horizonte. Plana em toda a extensão, a paisagem, terra e céu em planos iguais, sobre uma linha infinitamente horizontal.

Calor sufocante, exacerbado pela infinitude do espaço, do caminho, linha periclitante, pequeno traçado na terra lisa.

Era a perspectiva perfeita, mas agora era tempo, e o calor a aumentar. Parou por uns segundos, levou a garrafa à boca, só a lamber o gargalo molhado.

Lembrava-se de pouco, mas temia o pior, imaginava cenários que o assustavam,  e sentia-os, estranhamente, reais. Reconhecia aquele caminho naquele deserto infinito? Talvez, não tinha a certeza. Há quanto tempo andava? Quantas horas, pela localização do sol sabia-se ao fim da tarde, e o mês era Setembro. Isso tinha a certeza.

A confusão começa pelo menos aí, pensou, saí de Quemado a 10 ou 11 de Setembro, disso tinha a certeza.

O calor começava a tornar-se mais gentil, a luminosidade da terra a mudar para as cores mais quentes. Ao fundo, sim ao fundo,  uma sombra nascia, escura, agarrada ao horizonte. Uma montanha, um ligeiro planalto?

-que vieste aqui fazer ? Ouvia a pergunta de G. Não queria responder, ou não sabia como. Não sei se é boa ideia, continuou G. E agora lembrava-se dos olhos caídos, preocupados, até com medo do “bartender”. O primeiro copo ao balcão, a fauna do costume na ténue luz amarelada, onde o fumo construía paredes. A música perdida no rumor das vozes, que gritavam para serem ouvidas.

Agora sim uma linha de montanhas, negras sem luz para as iluminar. O terreno parecia começar a subir, quase imperceptivelmente, e vislumbra-se o sopé de uma pequena cordilheira que se estendia pelo olhar fora. Pequenos tufos de erva espessa aqui e ali, a terra mais escura, castanha.

Houve qualquer coisa que se aproximou de trás. Parou para reter esse sentimento: uma sombra, um calor, qualquer coisa que respirava o ar dos outros. Sensação estranha, como olhos que nos furam as costas.

A noite caia como uma sombra, tudo se pintava de cinza.

-mereces tudo o que te vai acontecer. Era a última coisa que se lembrava.

Percebeu que afinal era verdade. Não era possível continuar a viver como se nada tivesse feito, como se na tivesse acontecido. Merecia pagar pelos seus actos. Sentiu-se estranhamente preparado, finalmente pronto a aceitar o seu destino.

A linha desordenada do caminho, traçada sobre a terra escura e sem cor, desapareceu aos poucos com a noite cerrada.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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Uma resposta a Fim da Linha

  1. Emilio Romero diz:

    Bernardo: é difícil reter um episódio por muito que aperte teus ossos e palpe tuas retinas. Com consegui-lo sem apanha-lo com as duas mãos? Acreditas que conseguiste?

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