Mardi gras

Este texto foi escrito o ano passado em dia de quarta-feira de cinzas. Poderia ter sido escrito hoje o que vem confirmar a minha teoria de nihil novi sub rosa solis.  Por baixo, ilustro com uma bela “Vanitas”. Esta é de Jan Davidsz de Heem, 1600s. Que maior beleza para relembrar que memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris?

A mulher à minha frente na caixa do supermercado tem um cachecol azul. Busco um adjectivo para o azul enquanto espero vez mas ele não aparece. Penso cerúleo e parece-me exagerado. Olho em volta as revistas no escaparate e as fraldas nas prateleiras. Ultramarino não, nem índigo. Vejo as pontas do cachecol e acho que há um tom de quase lilás. Anilado também não. Só eu sei a falta que me faz uma palavra quando me falta. Passa uma rapariga calçada com umas botas de mosqueteiro. Se as minhas pernas medissem um metro e vinte eu também calçava umas e dizia en garde. Assim, minúscula que sou, não me posso d’artagnar. Saio do supermercado ainda à procura  de um modo de dizer o azul mas arrumo os dois iogurtes já esquecida. O sol abriu. Sento-me no rebordo da janela a aquecer as mãos numa chávena de chá. Lá em baixo passam dois carros devagar. Lavanda. É azul lavanda.

vanitas

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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3 respostas a Mardi gras

  1. riVta diz:

    Não diz en garde? Digo eu!
    – En garde. Atirando a capa para trás das costas agitando a rapieira e dando um baile às plumas.

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