O coração do poema

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.
(…)

 de Jorge de Sena in Ode ao Destino

O coração do poema

Os poemas têm coração: é um facto orgânico na biologia das palavras. E não interessa ao poema, se o poema nos ganha ou nos perde no primeiro verso – o poema está-se lixando para isso. O poema é como o amante apaixonado: só quer o seu leitor, o seu interlocutor, pois sem ele, como existiria? O poema precisa de ouvir bater o próprio coração na pulsação do seu leitor, naqueles melhores olhos que o lêem e dizem, existes, és para mim.

Quando o leitor vê vida na página impressa, toca o coração das coisas, quais letras?,  que é lá isso de signos?, é vida: o verdadeiro Fiat!  não é o do poeta, é desse interlocutor, desse amante, o leitor.

Por muito que um poeta ofereça a sua voz para dizer da configuração das horas, da nova cartografia da alma, ou só para a descrição dos bagos de romã, mistério de vidro carnal, de nada vale essa voz e é-se mudo como a pequena sereia e tem-se o mesmo lugar mundo: não há lugar no mundo se o coração do poema não cabe na minha mão ou na tua – fica do lado de fora dos portões da cidade platónica.

Não interessa se o coração do poema bate num só verso, se é no primeiro ou no segundo, ou se é um coração flutuante na água primordial de onde um dia emergimos Homo Poeticus e corre em cada letra. Nem interessa se bate só no último verso, aquele fim de linha onde a fala expira, o abismo espreita, o alfabeto se desfaz em espaço em branco, e se corta a ligação e aprende que é de olhos na morte que se soletra a vida.

O coração do poema inventa a duração na escassez: um minuto é tudo quanto temos para viver: Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a O coração do poema

  1. A. diz:

    Alguns poemas têm a chave do coração do leitor.
    A minha primeira porta se abriu aqui:

    http://www.escreveretriste.com/2014/12/ii-sou-tua/

    Espero pelas outras chaves. 🙂

  2. riVta diz:

    a poesia falou

  3. cinco parágrafos que parecem uma romã aberta

  4. Mario diz:

    A menina EV tem um hotel. E em cada quarto um poema. E vai-nos mostrando os quartos, ate encontrarmos o nosso. E faz bem ao coração.

  5. nanovp diz:

    Regresso ao coração da vida…

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