O homem que se terá feito operar brutalmente só para escapar àquilo que conhece

 

 

 

 

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Joseph Wright of Derby, The Corinthian Maid

O homem que se terá feito operar brutalmente só para escapar àquilo que conhece*

Ele mudou de rosto. Ossos foram serrados. A carne moldada como barro, enxertada, e a pele, retirada do queixo à testa, aguardou imersa em líquidos para voltar a cobrir a substância alterada. Tudo só para escapar àquilo que se conhece.

Como pode alguém chegar à superfície, encher os pulmões de ar e salvar-se, se está preso ao fundo?

Não o fez por atracção pelo desconhecido, nem pelo cansaço do mais que previsto futuro e, no entanto, cheio de imprevistos pois fora apontado herdeiro e sucessor de Tullus Hostilius. Não pretendia nada do terceiro dos reis de Roma por muito que estivesse preparado para a sucessão. O senado que se entendesse como quisesse.

Mudar de rosto, de nome, e atravessar a terra e o mar, foi como iludiu um destino que, segundo as suas palavras, se nos céus antes de encarnar o aceitara, decerto se enganara. Ou, então, decidira nascer duas vezes, o segundo nascimento da sua própria carne e sonho.

Não teria bastado desaparecer? Não, isso não, não era homem para se esconder. Nem pretendia rasurar o passado, levava-o consigo. Ainda assim apagaria as próprias feições. Porquê?

Isto aconteceu sete séculos antes do nascimento de Cristo. Mas deve estar a dar-se agora mesmo com muito boa gente e mesmo má.

É um erro comum, este de nos pensarmos uns e um dia nos descobrirmos outros. Mais comum a meio da vida quando, como diz Ruben A., se sabe que a partir dali a contagem é outra. Quase sempre a transição se faz com uns poucos solavancos arrumados ali entre perdas e ganhos, o balanço inevitável para a aceitação dos dias. Mas de vez em quando não. Recomeça-se a partir do meio. Tem de haver uma certeza funda, claro. Ou um desabamento que reconfigure a geografia dos dias. Ou uma ideia de reconstrução muito específica e insuspeita para as fundações que sustentaram já meia vida. Seja lá porque razão for, nem todos arriscamos a correcção do destino – ou será cumpri-lo? Temos medo, pensamos e se, afinal, não só perdemos quem fomos como não chegaremos a ser? Como se troca a segurança pela insegurança?

Os tempos eram outros e a medicina conforme a entendemos não existia. Mas o certo é que mal alvorecesse deixaria a casa de Butades, em Corinto, e seguiria rumo à Judeia e haveria de chegar às mãos de Abias, filha do velho Zacarias, físico, alquimista, criatura da prática e do mistério, e que tinha por mãos firmes, as desta sua jovem filha, a sua querida Abi que viria a ser rainha, um dia, ao lado do desastroso Acaz. Abi, a única que, tanto quanto lhe fora dado saber, poderia, com seu pai ao lado, mudar o rosto de alguém sem deixar um traço de reconhecimento.

Todavia, estava ainda longe, não fizera nem a metade do caminho.

Estava na oficina de Cora, outra filha de seu pai, a tão livre filha de Butades, o de Sicião, a sua amante feliz. Antes de sair, viu que ela havia desenhado à mão livre o seu perfil na sombra que projectara na parede, enquanto adormecera, por uns minutos, depois da refeição.

Ficou a olhar para a parede. Encontrava ironia ali. Cora, entre o desejo de o reter e a certeza de ir perdê-lo, capturara-lhe amorosamente a sombra, logo a ele que o que mais queria era sair para a claridade.

A sombra… escuro que segura um homem pelos pés e o esconde onde nem ele sabe, ou pode saber quem é.

Adivinhava o motivo do desenho e não era a sua vaidade quem falava: talvez ela pedisse ao pai para usar da ciência da argila e passar para um vaso de cerâmica este perfil de sombra, ou para um prato. E assim a ausência dele se faria presente e a sua falta estaria inscrita na vida dela. E assim a sua carne quente na cama se faria fria ao toque.

Ele sabia. As mulheres deixam-se prender a estas coisas, a estes nadas com forma e nome em línguas mortas. Fazer o quê?, se ao tocarem o frio da cerâmica é a perda do corpo quente que sentem? E a sua falta estaria circunscrita a não mais do que um vaso, ou prato, pois também assim são as mulheres, mão de domínio sobre o mundo que fica entre as suas cabeças e as solas das suas sandálias – e também isto ele sabia. E encontrava outra ironia. Não desenhara ela apenas o que conhecera, a sua sombra? Amá-lo-ia se ele fosse outro, se não o que, no escuro, foge para a luz, amaria aquele que haveria de nascer dele mal furasse o casulo para as estrelas de Jerusalém?

Era tempo de partir.

Na verdade, ele chegara àquele ponto da vida em que se sabe: não é o quanto se pode ganhar, é o quanto é preciso perder para ganhar.

* Esta frase-mote pertence ao nosso Vasco.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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9 respostas a O homem que se terá feito operar brutalmente só para escapar àquilo que conhece

  1. Mario diz:

    Entre a poesia e a prosa perdeu-se bastante mas ganhou-se outro tanto. E nao iludiu o destino porque o talento continua la. 🙂

  2. Mudar de nome e cara para iludir o destino? Fiquei com vontade fazer uma plástica.

  3. Beatriz Santos diz:

    É linda toda a metáfora; e também a da partida:). Todas as coisas têm a sua natureza, não sabem fugir ao tempo e à consequente mudança. Bon Voyage ao mutante e muita vida também para quem fica. Com um vaso. Um prato. O que importa, sempre arde na memória. Mesmo de uma sombra. Fica.

  4. nanovp diz:

    Pois a sombra não tem rugas…faz lembrar as Pietás de Miguel Ângelo a envelhecerem com ele, porque realmente a partir de certa altura começamos a contar a vida ao contrário…

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