O que impele a boca para a boca?

Shelley

Shelley, o rebelde inocente

Já um dia, copiando mil coisas que sobre ele se escreveram, falei aqui da sensualidade inocente e livre  de Shelley. E talvez “escandalosa” seja a melhor adjectivação para a sua poesia. Por ser ela tão inocente, por ter tanta fome de harmonia.

Neste poema, “Love’s Philosophy”, que me deu sei lá porquê para traduzir, a pulsão amorosa, humaníssima, essa vontade que uma boca tem de outra boca, a minha da tua, ressoa retumbante nos mares e nas montanhas, nos céus e nos ventos. Como se o desejo de um só ser humano revolvesse a Natureza inteira, provocando o abraço, enlace e fusão de todos os elementos. Ou será a convulsão da Natureza, panteísta, penetrante, em que tudo se funde e tudo se derrete, que suscita ou nos impele, a boca para a boca, a mão para a mão, o corpo para o corpo, a mente para a mente?

A Filosofia do Amor
Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

As fontes fundem-se no rio,
Os rios no imenso mar.
Os ventos do céu cruzam-se
Com eterna, doce emoção:
Nada no mundo é solitário,
Por lei divina todas as coisas
Umas nas outras se fundem –
Porque não eu contigo?

Vê como a montanha beija o alto céu
E as ondas umas nas outras se entrelaçam,
Ninguém perdoa à flor-irmã
Se desdenha o seu irmão:

A luz do sol abraça a terra,
Um raio de lua beija o mar –
De que valem tantos beijos,
Se tu não me beijas a mim?

chinese painting

Ou será a Natureza um êmbolo que tudo funde, tudo derrete, tudo liquefaz?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a O que impele a boca para a boca?

  1. Emilio Romero diz:

    Nada no mundo é solitário,
    Por lei divina todas as coisas
    Umas nas outras se fundem –
    Porque não eu contigo?
    Em outra ocasião falei que toda pergunta originada no campo poético invoca uma resposta. É um mero recurso retórico. Uma resposta tomada do real seria tirar esse leve encanto do terceto. As coisas se fundem porque são coisas. Os humanos não são coisas jamais chegan fundir-se nem sequer na conjugação dos corpos..

  2. A boca é atraída pelo mal (antes da invenção do Listerine):

  3. EV diz:

    Boa pergunta, belo poema, senhor tradutor.

  4. Beatriz Santos diz:

    Na verdade as pessoas não são coisas e nem me parece que essa fusão de todas as coisas seja mais que um exagero poético. E menos me parece que porque elas também nós. É de um naturalismo assaz arrojado. Rir das instituições é muito bonito, mas pouco viável. E, invariavelmente, faz vítimas.

    Fui lá atrás ler o que escreveu sobre Shelley e parece que a prática acompanhou a escrita. Há modos de vida estranhos que, para os próprios, são naturais. Não acredito que essas companheiras – na aventura de viver de acordo com canônes próprios – não tenham tido problemas. Mas se foi a vida que gostaram… quem somos nós. A primeira mulher foi nítida infeliz. Ou não se teria suicidado. E elas deixaram o cânone social para viver o dele. Não sei porque me surge o poeta com ar de esbirro, deve ser impressão.

    Às vezes, os grandes poetas não são grandes pessoas para usar no quotidiano. São dos livros, para ler e gostar e admirar.

  5. M. diz:

    Pois. É isso mesmo. Absoluta fusão de todos os elementos da Natureza. E quando se não dá, desaba o Universo.
    Experimente usar este poema para legendar a “Corinthian Maid” que aqui pôs há dias e ninguém mais precisa de imaginar contos…

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