O sabor e o cheiro

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Já passava da meia-noite, mas não muito. Era capaz de o saber, se  não pelo próprio vento, pelo sabor e o cheiro e a sensação do vento mesmo aqui, a coberto das portas cerradas e aferrolhadas.

Palmeiras Bravas, William Faulkner
(tradução de Jorge de Sena)

Confesso, gostava de saber coisas pelo vento – meia-noite ou meio-dia. O meu pai sabia coisas pelo vento e pelas nuvens. Eu sou de uma geração que soube tudo, ou quase tudo, pelos livros. Mas muitos, tantos dos livros que li, sendo livros, amavam o ar alto que está perto do céu, as areias da praia, o capim do mato. Havia um índio, Yaqui, num livro do Oeste Selvagem de Zane Grey, “The Golden Desert”, literatura de terceira classe, um índio que se fundia com a noite, com o curso de um rio e os cactos dos rochedos, num panteísmo de aventura, perigo e risco. Eu não queria ser o livro – ainda hoje não quero. Eu queria ser o índio – e hoje já sei que nunca o serei.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a O sabor e o cheiro

  1. E no entanto, numa camuflagem subtil, até o és… Grande abraço!

  2. riVta diz:

    acho que o MF fez mesmo sinais de fumo. afinal é um grande índio sem saber. que bom ter os dois aqui.

  3. Beatriz Santos diz:

    Talvez o boletim meteorológico nos tenha despegado do astro e seus arroubos. Ventosos ou não. Habituámo-nos a quem leia por nós. Mas pode ser congénita a incapacidade. Por exemplo, a Manuel Alegre também o vento nada conta. Não é que ele não conte, é que o ouvido não sabe escutá-lo (não convém é dizer isto ao poeta). Como não leio grandes autores – ainda hei-de remendar o buraco – e nem li esse pequeno autor(de 3ª), o mais parecido que tenho na memória é ter sonhado ser a Ìndia da canção da Gal. Também não chego lá, mas reconheço-me algumas semelhanças:) infelizmente não as mais atraentes. Porém, existem.

    Leio um verso ou outro da canção do vento. E há na verdade momentos em que estamos unidos ao universo ou é ele que está em nós. São lampejos breves de desprendimento -êxtase – que só conseguimos pela sensibilidade. Esse índio é de romance mesmo. Mas nós não somos de papel:)), portanto só nos calha a terminação.

    Não é de todo mau.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    E quem é que quer ser o livro? (Bem caçado, isso) É um desconsolo alfabético descobrir que não se é o índio.

  5. Eu sei muitas coisas pelo vento (minha iliteracia talvez seja compensada por isso). Tenho um rio e “Sei de um rio…” O meu rochedo domina o Tejo, a Lezíria, alcanço Lisboa e fico perto de Deus. Fui índio muito cedo.

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