O sono do cão

 

 

Joseph Wright of Derby, The Corinthian Maid

Joseph Wright of Derby, The Corinthian Maid

Se Carroll já tivesse nascido eu teria sido a sua Alice. Alice de mil barbas em vez de róseos dedos que, em boa verdade, ela também não tinha. É a idade que troca as voltas aos livros que fazem o meu ser.  Estou condenado pela memória ao outro lado do espelho. Que é, espreitem bem, aquela porta ogivada de um vermelho que é do mais negro ciúme. Mas não pensem que espreito. Há limites para a indignidade.Eu permaneço lá fora, de costas, hirto , a minha melena branca aparentemente indiferente à crueldade infinita de toda a cena. Tudo o que vêm é a imaginação de óleo que se vai esvaindo, em gotas grossas, num classicismo sem brilho nem sequer muito génio, nesta tela em chiaroescuro que é o meu coração oitocentista de homem traído.

Mas não é ela, desenganem-se, que eu choro. Um homem acaba sempre por esquecer os braços de uma mulher infiel. Nos lábios, nos seios, e em todos os sexos que o Mundo tem para dar. Mesmo que por ela tenha atravessado o oceano. Mesmo que o mar das suas entranhas se lhe tenha incendiado em chamas. Mesmo que os momentos de dor lhe tenham parecido anos. Estradas que pareceram não ter fim. Vão por mim que me faço velho. Todas as lágrimas do ciúme, todas as saudades da mulher que escolheu não ser nossa, todas as memórias do despeito, acabam por secar no deserto do fim da vida.

Digo todas? Minto. O cão é meu mas o meu cão não é Argos. Não espera que eu regresse. Deixou-se adormecer aos pés do outro. Está-se nas tintas. Nas tintas pardacentas com que o chorarei até ao fim dos meus dias. É ele o amor que julguei incondicional. É para o seu pacificado sono que, por mais que me esforce, não encontro resposta.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

6 respostas a O sono do cão

  1. Bem jogado – e chorado. Não há melhor para se chorar bem do que o fora de campo.

  2. nanovp diz:

    O sono da inocência…

Os comentários estão fechados.