Of bare bones and bleeding hearts

6dc519a4dac79202ef7dd5e45fc02622-Mas o que é que te aconteceu para ficares nesse estado, foda-se?

-O que queres que te diga? Olha, é tudo culpa de um par de olhos que se levantaram para mim de repente. Na praia. De uma toalha estendida na areia e que se me vieram enfiar no córtex como flechas. Daquelas dos apaches, sabes? Daquelas com farpas que não voltam a sair a não ser rasgando a carne e derramando montes de sangue. Enfiaram-se e não saíram mais.

-Então e depois?

-Depois, de repente, tudo à minha volta ficou assim como uma polaróide dos anos 60. A luz do sol tornou-se mais forte, mais quente. Os amarelos e os laranjas da falésia incandescentes. A espuma do mar fosforescente. A areia ficou de repente a escaldar, a queimar os pés. Até as irritantes vozes das criancinhas à minha volta se tornaram mais suaves. E ao mesmo tempo instalou-se-me no estômago um nervoso miudinho, eléctrico e ansioso. Amor enfim. Daquele fulminante.

-És mesmo um lírico pá. Dá lá mas mais uns goles dessa merda que isso passa.

-Passa nada.

-Então conta lá, vá. Olha lá a paciência que tenho para ti.

-Fui para casa. Coração a bombar. Grande como um motor pneumático. Fiquei alto, a sentir-me enorme de repente. A bater com a cabeça nos tectos. Nem passava nas portas. As articulações a doer e a estalar por todo o lado. Depois pus-me à procura dela. Como um cão de caça. Por todo o lado. Bati a costa, as praias e as aldeias todas ali à volta. Passei horas em frente ao ecrã do computador a estudar e cruzar perfis de amigos. Sempre com as flechas penduradas nos cornos.

-Porra que enjoo. Presumo que a encontraste, não?

-Amiga de amigos de amigos. E acabei por conhecê-la. Na semana seguinte. Numa festa lá da aldeia. Completamente perfeita em nada mas quase perfeita em tudo. Voz rouca numa boca nervosa. Pulsos e tornozelos finos. Cabelo em desalinho. Olhos escuros. Grandes e profundos. E vinha com flechas metidas neles também. Que lhe tinham ficado também lá da praia. Eram as minhas tás a ver? Sabes, daquelas curtas que entram fundo. Todas lá para dentro, tipo dardos.

-Sempre me saíste um convencido da merda…

-Pois sim. Mas olha, afundámo-nos um no outro. Ficámos doentes. Febris. Amor total. Daquele a sério. Aflitivo. Olhos alagados. Mãos suadas. A primeira vez que me tocou no cotovelo, descontrolei-me.

-Acho que vou vomitar meu…

-E depois entramos logo numa realidade fluida, orgânica. Líquida. Olhos nos olhos. Entravámos pela boca um do outro numa sofreguidão quase canibal. E nem era bem sexo, aquilo. Era um ritual primordial. Visceral. Uma inseminação espiritual mútua da alma e do corpo. Ou do corpo e da alma sei lá. Sem limites. Sem regras. Quase sangrenta a coisa.

-Devias mas era andar um bocado a seco há algum tempo cheira-me. Bem, olha, vamos mas é embora daqui que isto está uma merda.

-É verdade mas nunca tinha sido assim sabes? Uma fusão completa do….

-Foda-se, bebe lá isso e vamos embora. Vamos aqui á rua de baixo.

-A coisa durou uns seis meses. Consumimo-nos um ao outro. Ou antes, a coisa consumiu-se toda de repente. Como um petardo incendiário daqueles da bola. Fiquei magro como um prego. Era tudo muito complicado. Começamo-nos a dar mal fora da cama percebes? Muita bagagem os dois. Mundos em colisão. Cenas macacas. Mal entendidos. Acabámos duas vezes à bofetada. Estás-me a ouvir ou não?

-Hem?

-Estava a dizer que a coisa se estragou. Passávamos o tempo a foder na cama e a discutir fora dela. Um dia acordei a meio da noite e tinha-me caído a pele toda. A cama toda coberta de escamas. Fiquei todo em carne viva. Com os músculos e os tendões a palpitar de fresco por todo o corpo. Os lençóis todos cheios de sangue. Ela saltou-me da cama aos gritos a dizer que assim não dava. Que eu já não a amava. E que aquela coisa da pele a cair era tudo uma cena minha para a afastar.

-Isso é que já é uma cena foleira. Que cabra!

-Cabra nada. Amava-a cada vez mais. Mas a partir daí já não quis mais nada comigo. Acabou tudo de repente. Deixámos de nos ver. Era melhor assim talvez. Fiquei na merda. A torturar-me. Sem pele e a pensar o tempo todo em flechas apache e polaróides. Passados uns dias comecei a ter frio. Primeiro um frio fininho e arrepiante de intranquilidade. Depois um verdadeiro frio de desespero que me congelava as veias à superfície esfolada da carne. Comecei a meter-me na banheira ao fim do dia com água a escaldar para me aquecer e esquecer. Ao princípio aliviava mas ao fim de uns dias, enquanto submerso, comecei a aperceber-me que me estava a dissolver em farripas. Ao início eram só pequenos filamentos de carne dos braços e das pernas. No fim do banho tinha de os apanhar um a um, senão entupiam-me o ralo. Depois de repente a coisa precipitou-se. Durante a última semana antes de ficar assim, lembro-me que perdi as orelhas e o nariz na segunda-feira, a carne das pernas e dos braços na terça. Perdi por fim os pulmões na quarta, os órgãos do abdómen na quinta e depois, durante o fim-de-semana, debaixo do duche, derradeiros e resistentes, a pila e os tomates.

-Grande merda. E ias trabalhar nesse estado? Devias meter um belo de um nojo. Pelo menos estás melhor agora assim, amigo. Só esqueleto. Ossos limpinhos e reluzentes.

-Só esqueleto? Então e este coração que aqui vês? Olha, foi a única coisa que me ficou. E que como vês continua enorme. E que continua a bater como um motor pneumático. E é por ela foda-se. Como naquele dia da praia. Com mais força que nunca. Pendurou-se pelas artérias aqui às costelas e não larga. Não há maneira de se desprender. É um grande teimoso de um órgão. Digo-te que o amor é fodido, meu. Já não me lembro quem o escreveu mas é mesmo fodido. Fodidíssimo.

-É mesmo. Mas isso passa-te pá. E agora já podemos ir ou não? Vamos aqui para o bar de baixo. Parece-me que hoje tenho lá umas amigas à maneira.

-Não vou meu, não me chateies mais. Vai tu. Manda um beijo meu às tuas amigas. Eu vou para casa. Só ainda não decidi se para descansar os ossos ou para os enterrar de uma vez por todas lá atrás, no terreiro do jardim.

 

Perfume Genius – “My Body”

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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8 respostas a Of bare bones and bleeding hearts

  1. riVta diz:

    Espero, querido Vasco, que o seu (meu) herói não enterre nada. 🙂

  2. EV diz:

    Muito bom, Vasco. Apetece continuar a ler este livro de shorts.

  3. Vasco Grilo diz:

    É o tempo Eugénia. Essa dimensão da criação, maldita e inútil.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Vasco, fartei-me de gostar. Aquilo das escamas é que não descansa ninguém: este tipo esteve à beira de ir ao grelhador…

  5. nanovp diz:

    Uma “metamorfose amorosa” Vasco, ou uma dieta que só deixa o coração…É como dizes o amor é fodido e emagrece ao ponto de deixar só ossos.

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