Para não Fugires

 

Joseph Wright of Derby, The Corinthian Maid

Joseph Wright of Derby, The Corinthian Maid

Desenho-te, porque não te tenho aqui. Apareces aos poucos na folha vazia, antecipando a forma. Ficarás depois prendido a uma tela, numa qualquer parede. Por momentos, minutos, horas, controlo o universo, que só existe aqui, neste momento que se alonga.

Desenho-te para que não desapareças no escuro do tempo, sugado pelo vento da mudança, da vida que se desfia.

Desenho-te para que fique qualquer coisa. Para que não fujas. Linhas que lembram, formas que vivem soltas do tempo, eternizadas em claros e escuros.

Desenho-te porque ainda estou vivo. E estou aqui, de olhos fechados.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

10 respostas a Para não Fugires

  1. Beatriz Santos diz:

    Desenha de olhos fechados:) sabe de cor o perfil.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Confiança e experiência, não a minha claro…Matisse no final da vida assim desenhava…

  2. Emilio Romero diz:

    Bernardo esta frase vale por todo o texto:Desenho-te para que não desapareças no escuro do tempo, sugado pelo vento da mudança, da vida que se desfia.
    Um texto exige pelo menos um fulgor que ilumine toda essa atmosfera opaca que nos apanha.

  3. Pedro Norton diz:

    Se bem te conheço desenharás para toda a vida. E, oxalá, como acreditas, bem para além dela.

  4. EV diz:

    Será a vontade de viver e não morrer nunca que nos prende às linhas?

Os comentários estão fechados.