São Tomé

De que matéria se fazem os silêncios de um tempo que já não é? Do verde exuberante que pulsa por todo o lado? Da humidade que se vai fazendo espessura? Da pedra que resiste? Da fragilidade da madeira que desiste? Dos mortos que já ninguém chora? Das janelas que se fizeram inúteis? Das alas, longuíssimas, dos hospitais onde imaginamos os gemidos de outrora? Dos monstros enferrujados que tentam manter a sua industrial dignidade? Da indignidade imensa a que se chamou um império? Da debilidade congénita de um mundo que partiu e se foi consigo? Ou da inutilidade patética dos objectos a que o tempo, por um ilusório momento, fingiu conceder um doce remanso?

No umbigo do Mundo há um lugar, risonho entre os mais risonhos dos lugares risonhos, onde a memória, de tão inútil, se basta a si própria. E onde a alegria, essa eterna criança, parece brotar, em enxurradas, de um presente que é chuva e que é tudo o que verdadeiramente conta. Por aqui, numa paz quieta, o hoje fez-se sorriso deixando adormecer o passado. Por todo o lado, por entre os cheiros a pulsar de vida e de agora, do cacau, da terra húmida, do café e das jacas, pode ouvir-se o doce torpor vegetal das memórias verdes que já não são de ninguém. No equador do tempo só existe presente.

São Tomé 1

São Tomé 1

São Tomé 2

São Tomé 2

São Tomé 3

São Tomé 3


Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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9 respostas a São Tomé

  1. M. diz:

    É muito triste ler-vos, às vezes.
    Algumas dessas “memórias verdes” são de alguém, sim! São as minhas quando, muito menina, lá estive durante um mês. Mas não são só verdes. São azuis, e cinzentas das nuvens atlânticas prenhas de chuva, e brancas da espuma da praia das sete ondas. E marmoreadas das cascas das tartarugas.

    Ou as memórias do meu pai, estudante colonial, embarcado no “Cruzeiro à Metrópole”, vindo de Moçambique, que por lá passou em 1937 quando o império era uma dignidade.
    Tinha 14 anos.
    Ora leia as suas impressões:

    “Dia 1 de Junho de 1937
    Quando acordamos já estávamos ancorados na baía de Ana Chaves.
    Aí pelas 8 e 30 desembarcámos em 4 bons gasolinas que nos levaram a terra.
    No cais havia muita gente à nossa espera, cuja maioria era constituída por pretos.
    Precedidos pela banda dos bombeiros

    Dirigimo-nos à “Câmara Municipal” onde tiveram a palavra o representante do Governador, Presidente da Câmara, o Inspector das escolas, dois alunos das escolas e o aluno de Luanda, Bastos.
    Da Câmara metemo-no nas camionetas e dirigimo-nos para as roças anteriormente indicadas. Os do meu grupo foram para “O Rio de Ouro”. Esta roça é a melhor da ilha.
    As suas estradas são muito bem niveladas e acampadas .
    Às 2 menos ¼ almoçámos. O almoço foi muito bem servido tendo sido também muito bem regado.
    Depois de almoçarmos fomos ver as instalações do novo hospital.
    É mais pequeno, muito mais pequeno, que o de Lourenço Marques mas lá dentro respira-se um ambiente de limpeza. Nas grandes enfermarias dos pretos nem um mau cheiro podemos apontar. Enfim! É o que se chama limpeza.
    Depois de agradecermos aos donos da casa fomos à Câmara Municipal onde houve um Pôrto em nossa honra.
    Às 6 horas viemos para bordo.
    Ainda cá estavam os pretos aos quais eu comprei uma camisa de sêda e vários objectos de tartaruga.
    A ilha é muitíssimo arborizada, muito verde coisa que eu nunca tinha visto por outras cálidas e remotas paragens africanas equatoriais.”

    • Pedro Norton diz:

      M, obrigado antes de mais. As memórias são seguramente suas, do seu pai, são do meu avô, meu herói, que por lá andou também nos anos 30. E serão de muitos mais. Mas de São Tomé trago sobretudo a imagem de lugar risonho onde o presente é o que verdadeiramente conta. Mas quem sou eu para perceber seja o que for?

      • M. diz:

        Se permite que eu me mantenha em memória, essa é a terra de um povo que sempre foi risonho, pacífico e aceitante.
        Estive em S.Tomé na casa de um tio cirurgião – julgo que o único cirurgião do Estado existente na ilha em 1959 (as roças tinham corpo médico exclusivo)-. Era chamado muitas vezes para socorrer homens esfaqueados. Todos vítimas de agressores imigrantes de Cabo Verde. Os santomenses não usam facas, costumava dizer meu tio.
        Quando ele próprio saíu de S.Tomé levou consigo um criado, João, que nos encantava com histórias da sua infância, numa roça perdida no verde. Rapazinho, fora Criado de Capa. Corria atrás do cavalo do seu patrão, carregando uma capa de chuva para resguardar o senhor das descargas súbitas e colossais. Do João Gudi retenho a bonomia, o riso, a sensatez e o pragmatismo. Ensinou-me a lavar garrafas com sal grosso e vejo-o, sentado dignamente, de pés descalços entregues às mesmas mãos da pedicure – branca – que habitualmente “alindava”os da minha tia.
        Memórias que são minhas e cor de ternura…

  2. Emilio Romero diz:

    Perguntas de fundo poético não tem resposta. Nem o autor nem o leitor vão além da pergunta. O que possam responder resvala pela superfície e se despedaça com suave modesta no chão.

    • Pedro Norton diz:

      Caro Emilio,
      tem provavelmente toda a razão. Não sei se as perguntas pedem resposta. Tal como as memórias, às vezes bastam-se a si mesmas.

  3. riVta diz:

    “…No equa­dor do tempo só existe presente.”
    coisa tão b’nita de se d’zer

    • Pedro Norton diz:

      Isto dava uma grande conversa mas não é só o equador do tempo. Passado e Futuro são tramóias que o Presente inventa para se sentir menos só. Mas no fundo só o Presente existe.

  4. Há quem tenha escrito no corpo que só pode viver no “doce torpor vegetal” do meio do mundo.

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