Zan? Conheço-o de ouvido

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É meu amigo. Mais meu amigo por ser meu amigo de Angola, antes da Dipanda, depois da Dipanda. São coisas que não se explicam Em Angola, e agora em Portugal e outra vez em Angola, o ZAN, que eu pensei há muitos anos que era só jazz, passou a ser pintor. Inteiro, irreverente, talvez demasiado secreto. 

Vai voltar a expôr em Luanda – como já expôs em Portugal. Eu tinha de lhe escrever um texto. Tentei copiar-lhe o estilo, a medida dele. Mas ele, magro, é mais alto do que eu.

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Conheço-o de ouvido
Manuel S. Fonseca

Apetece-me dizer que o conheço de ouvido. O josé ZAN andrade, o zé, o jazzé andrade, é um tipo de vogais abertas, explosão de sonoridades. Há a voz dele, irónica, exacta, poupada. E há a música, a dele e a dos outros, a que punha na rádio, música que foi a camisa e o par de calças com que cruzou a vida. Uma camisa e um par de calças que se fartou de despir para vestir os nus e os que tiritam de frio, dando-lhes esse bocadinho de calor que vem, obscuro, do interior tropical do corpo e da sempre inquieta e insatisfeita mente.

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O ZAN, antes de ser ZAN, já pintava o mundo e a manta com o som, a alegria, a raiva, a energia de big bands, solos de sax ou clarinete, a ganzada exuberância de um baterista. Tudo isto, que tenho de ouvido, se passou na Luanda colonial, na Luanda transicional, por fim, na Luanda independente. Depois, vim perder o ouvido em Lisboa e deixei de o ouvir.

Há, agora, um novo ZAN. Trocou os acordes por tintas. Há um novo ZAN a trocar tintas? É um ZAN de cores, texturas e formas. Kissange troca com bisnaga. Piano troca com pincel. Escuto, olho e acho que este ZAN é o mesmo Zé, Jazzé Andrade. É um pintor. Pinta, mas pinta de ouvido.

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Até onde é que se ouve o ZAN que pinta? Ouve-se em Luanda e Lisboa, dizem-me. Talvez, mas podia ouvir-se mais longe. Eu acho que as ressonâncias das cores deste ZAN – tão críticas, com tanto humor – podem muito bem ouvir-se em Nova Iorque, Londres ou Xangai. As colagens pictóricas do ZAN, uma música de elidir cinzentos e só aceitar tintas fêmeas, podem ir a Tóquio, têm clin d’oeil para triunfar no Rio, Paris ou Madrid.

Tenho este Absolut Zan no ouvido. Ouço-lhe uma mulata vontade de absoluto. A erótica dele é universal, polpa vermelha como a gajaja amarela da vizinha. Porque é que, Zan, escondes a fruta ao mundo?

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Zan? Conheço-o de ouvido

  1. EV diz:

    Lê-se de ouvido e vê-se muito melhor este Absolut Zan.

  2. Então também deves conhecer de vista:

  3. nanovp diz:

    Só sentidos….

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