A persistência das maçãs e das montanhas

“And (like Van Gogh) he makes his “saints out of such things; and forces them-forces them – to be beautiful, to stand for the whole world and all joy and all glory…”

Rilke, Letters on Cézanne

 Persistência, genialidade, ou apenas trabalho?  “Travailler, travailler, travailler”  terá dito Rodin a um colaborador seu. Como conseguir transformar as mais pequenas insignificâncias à nossa volta? Transformá-las em monumentos, em obras que transcendem o tempo e a vontade própria.

Cézanne ainda a lembrar Corot (1860)

Cézanne ainda a lembrar Corot (1860)

Cézanne nas naturezas mortas ou no Mont de Saint Victoire.

A construção meticulosa, persistente de uma arte do quotidiano, uma peça de fruta, uma mesa, uma montanha, um retrato. Uma arte desligada do fantástico, de tudo aquilo que está em voga, daquilo que grita novidade. E no entanto uma arte que parece ficar.

mont-saint-victoire 1887

mont-saint-victoire 1887

Mais de cem anos depois da sua morte a pintura de Cézanne continua a parecer pintura de hoje, mesmo quando hoje podemos afirmar que já não existirá pintura. Entendida da forma como entendemos esse período ainda antes da explosão do cubismo, do futurismo, mas já prenha de modernidade, de espanto.

natureza morta 1880

natureza morta 1880

Olhamos para Cézanne e tanta da arte da mesma época parece conservadora e datada. Talvez Manet com o seu fascínio pelo clássico se mantenha mais perto e vivo.

Até porque Cézanne, nascido entre Manet e Renoir, tem mais a ver com Gauguin e Van Gogh, embora nenhum destes tenha tido a enorme influência que Cézanne veio a ter no desenvolvimento da pintura moderna. Em Matisse, em Picasso, em Bonnard. Em Rilke claro.

Tendo passado o período parisiense obrigatório para quem quisesse ser alguém na pintura europeia do final do século XIX, é isolado que Cézanne abre caminhos para o futuro.

Na sua terra, na paisagem de Provence, Cézanne encontra e redescobre o motivo da sua obra. Pinta mais de sessenta vezes o Mont  Saint Victoire, e um número equivalente de naturezas mortas. Impressionante como esses quadros mudam, crescem, envelhecem.

mont-saint-victoire 1906

mont-saint-victoire 1906

“ Not since Moses has anyone looked at a mountain so greatly” escreveu Rilke ainda sobre Cézanne.

Persistência que acompanha um olhar especial, uma persistência genial, ou só duradoura.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a A persistência das maçãs e das montanhas

  1. adelia riès diz:

    Cézanne et Rilke, quelle merveilleuse compagnie.

  2. Beatriz Santos diz:

    oh, ele não era apenas esforçado e persistente, era também um génio. Como pode observar-se na transformação do Mont de Saint Victoire (1906).

  3. nanovp diz:

    Uma transformação que marcou toda uma era da pintura…

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