Como salvar o mundo e ir ao cu a uma princesa sueca

King

Acabei há minutos de ver “Kingsman, Serviços Secretos”. E percebi que Deus é grande: há dias na vida em que nos prende um pedregulho ao corpo e parece que nos vamos afogar, parece que andar neste vale de lágrimas é a mais acabada desgraça – e se eu hoje estava com essa disposição sórdida e sombria! Mas, por ser grande, Deus, depois, redime-nos, com um filme destes, divertido, sem regras, um vale tudo de surpresas e muitos bons fatos vindos de uma alfaiataria de Saville Row.

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“Kingsman” é um filme de espiões,  paródia álacre aos filmes de James Bond. Falo com as pessoas na rua, falo com os meus amigos, e o que é que todos me dizem? Que não se ensaiavam nada para atestar uma carga de porrada aos maus e filhos da puta que, segundo eles, lhes andam a dar cabo da vida. Ora, em “Kingsman” há montes de gajos maus e filhos da puta. Há, por exemplo, um gangue, cujo chefe anda a papar uma viúva, por acaso a mãezinha do nosso herói. E o que é que acontece a esses merdosos, reles bandidos mal-cheirosos? Nem mais, levam dois valentes atestos de porrada, que só se perdem as que caem no chão. Aquilo dói? Deve doer, claro, e é isso que queremos, que lhes doa, que sangrem, que saiam dali com fracturas expostas nos joelhos. E o que é bom em “Kingsman” é que saem e não conseguimos deixar de nos rir.

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A realização do filme é muito boa, as cenas de pancadaria são coreografadas como se fosse um musical. Tanto se dá que seja uma cena de pancadaria, huis-clos, num pub, como uma cena de pancadaria, worldwide, do Rio de Janeiro a Mumbai.  Mas as estrelas do filme são os actores. O melhor de todos é o mau. Todos sabemos quem é Samuel L. Jackson, um tipo que deve ter a minha idade. E não tem, é mais velho cinco anos – pois é, e  eu nunca o vi tão bem e tão jovem. É um misto de dois multimilionários das telecomunicações. Tem dois terços de Steve Jobs e um terço de Bill Gates. E tem uma causa: o aquecimento global. Anda a convencer meio-mundo não só de que o aquecimento global é apocalíptico, mas também de que tem a boa solução para erradicar o problema. Ouçam-no porque vale a pena ouvi-lo. Jackson, o mais versátil actor negro dos últimos 50 anos, fala como nunca falou. É belfo. Está revoltado com o aquecimento global e sai-lhe da boca uma revolta massa-massinha. He talks so funny. O gozo que Samuel L. Jackson teve a ser mau! Vê-se que goza cada frase e cada gesto – logo ele, um “não me toques”, que tem uma personagem que odeia violência.

Colin Firth é o herói bom, um exemplo para um jovem espião que anda a educar. Há um momento em que que Firth se passa. É numa igreja cheia de fundamentalistas exaltados. Firth ouve aquele puritano caldo vomitado que eles regurgitam e já não aguenta mais. Vira-se para uma madame e diz-lhes: “Sou uma puta católica, e vim a um congresso só para dar uma fora do casamento com um amante judeu negro que trabalha numa clínica militar de abortos. Viva Satanás e tenha um resto de dia maravilhoso, madame.” Que é como quem diz, vira-lhes o cu e manda-os foder. Eles até vêm com vontade, mas Firth mata-os um a um e são para aí uns cem.

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E o jovem espião que Colin Firth anda a educar? Não vos quero estragar a surpresa, mas garanto-vos que deixa os fatos de treino dos subúrbios e da saloiada, aprendendo a vestir-se e a usar uma gravata (Tsipras que ponha os olhos neste Alex Nikolov, que nem fotografia ainda tem no imbd). O jovem espião salva o mundo. Nem é que ele tenha salvado o mundo a pensar nisso mas, tal como nos contos de fada o príncipe-sapo beijava a princesa, em “Kingsman”, o mais lindo e moderno conto de fadas, quem salva o mundo pode e deve ir ao cu a uma princesa sueca. A pedido da princesa e a muito gosto de ambas as partes.

ps – E quando começar a correr o genérico final (sim, a lista dos nomes dos autores, actores e o raio dos sindicatos todos) deixem-se ficar, porque ainda há mais. Não percam nadinha.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Como salvar o mundo e ir ao cu a uma princesa sueca

  1. É pena ter o Jackson, um mau ator, estraga os filmes onde entra, (como por exemplo Shaft, e até o Snake on a Plane), mas como tem boa imprensa, enfiamo-lo pela goela para fazer fois gras cultural (para parecermos mundanos). A new Suécia é Angola:

    • Taxi, o Samuel é o maior. Até o catalotolo dançava. O Samuel não tem a doença do mataco. Pisa ou não pisa? Pisa. Mata ou não mata? Mata.

    • Adão Miranda diz:

      E eu que pensava que não poderia existir algo pior do que funk ou kuduro, me deparo com essa merda de catalotolo.
      A propósito, dizer que Samuel L. Jackson é um mau ator só prova que a sua capacidade de avaliação condiz muito bem com seu gosto musical.

  2. nanovp diz:

    Nada como um bom excerto de porrada Manuel. Nos tempos que correm, entre o desvairo do mundo, a neura das notícias, e o verão que nunca mais vem, é mesmo o que apetece dar….e nem precisas de dizer quem são os f.d.p….

  3. Pedro Bidarra diz:

    Curioso que ninguém aprofunde o “ir ao cu”. Explica lá Manuel, como é? mesmo no texto não aprofundaste. Não se faz. Não se pões um “ir ao cu” no título e depois nada… Ou ias estragar a história?
    Parece-me que é a primeira vez que o EéT fala em ir ao cu. Estamos no bom caminho. Eu gosto.

    • Pedro, há uma macia referência no final, mas não posso entrar, se assim se pode dizer, em mais pormenores, porque seria spoiler. Em todo o caso, a devida honra a quem a merece, a primeira vez que o nosso Escrever se debruçou sobre o assunto e explicitamente pôs um cu à janela, tu foste o autor da proeza no belo post que levava por título, e cito de cor, “Um belo cu”.

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