Dia a dia, lentamente.

Digitalização 1Os arquitectos não tem de saber pintar, nem os poetas de tocar violino. Os escritos de Tarkovsky são mais notas e apontamentos, conceitos e formulações de opinião. No seu livro “Sculpting in Time”, um título que diz muito sobre o seu trabalho, uma obra que se vai afinando com o tempo, Tarkovsky fala dos seus filmes, e da relação deles com a cultura do seu tempo, orientando e esclarecendo o discurso para o público leitor.

Aqui, neste diário, que tem o título “Time Within Time- The Diaries 1970-1986”, na minha edição da Faber and Faber (outra vez o tempo, digo eu), nada parece ser escrito para o leitor. Notas sobre lugares, aspectos ligados ao desenvolvimento dos seus filmes, da sua vida familiar; ou ainda episódios banais, mais ou menos interessantes para o leitor, preenchem estes diários que se estendem por 16 anos terminando em 1986 , ano da morte do realizador.

Muito do diário são notas rápidas, concisas, sem enquadramento, pragmáticas, a lembrar um estadista ou um medico.

Entrada a 6 de Setembro de 1978:

“Books :

Rudolph Steiner “Knowledge of the spirit” (1930).

Knowledge of the Supernatural in our Time (1930).

Sargepalli Radhankrishnan, Indian Philosophy .”

Mas uma leitura mais paciente descobre a clareza do caracter do realizador, os seus grandes conceitos filosóficos e espirituais que orientam a sua obra, as sua opiniões em relação à cultura , a vontade de questionar o mundo à sua volta através de um olhar critico que não se satisfaz com respostas fáceis.

Entrada a 6 de Junho de 1980:

“Where have all the great ones gone ?

Where are Rossellini, Cocteau, Renoir, Vigo ? The great – who are poor in spirit? Where has the poetry gone? Money, money, money and fear…Fellini is afraid, Antonioni is afraid…The only one who is afraid of nothing is Bresson.”

Entrada 9 de Junho:

” We have forgotten how to observe. Instead of observing, we do things according to patterns”.

Uma clareza rara na crítica, uma faca afiada que sabe onde deve cortar.

 E a 21 de Junho de 1980 :

” Spiritual degeneration. Money and make-believe replacing the life of the spirit .”

Filho de poeta,  a espiritualidade e as grandes questões da humanidade perseguem-no, e obrigam a um questionar constante,  um olhar novo a cada dia que passa.

As memórias e as saudades (nos últimos anos vive sem poder ver a família, Nostalgia seu penúltimo filme é rodado em Itália), têm um lugar cativo, assim como os grandes mestres, Dostoievsky, Bresson, Leonardo, Piero de La Franscesca, Giotto, entre outros tantos. Alguns encontrarão lugar nos filmes de Tarkovsky, outros ficam agarrados para sempre a projectos inacabados.

No final o cinema confunde-se com a vida e com  a memória, com a escrita, com a poesia que Tarkovsky nunca esquece, transformando a forma como olhamos o mundo à nossa volta.

“There is nothing more difficult to achieve than a passionate, sincere, quiet faith”.

E acho que Tarkovsky pode ter toda a razão.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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2 respostas a Dia a dia, lentamente.

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Bernardo, belo Está Escrito. Para pensar. E estava a pensar que Tarkovski talvez não tenha razão numa coisa. Ele diz que o dinheiro é inimigo da vida do espírito. Eu diria que não é mais nem menos inimigo do que a pobreza. Há umas duas ou três gerações enganadas sobre esse ponto e andamos a levar com isso por herança.

    • nanovp diz:

      Também é verdade Manuel. Para um Russo mal tratado pelo “comité”, e obrigado a emigrar no final da vida, não tão longa assim, a ideia do “entertainment cinema” e a economia de mercado pareciam monstros horrendos, com quem ele não sabia lidar. Daí em parte, penso eu, o fascínio por bergman e bresson…

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