Este é o meu liceu, Salvador Correia, o Mutu

Liceu_Nacional_Salvador_Correia

Foi este o meu liceu. Por ser o meu, mas mesmo que o não fosse, é o mais belo liceu que conheço. Tem uns braços abertos sempre a dizerem-me “sê grande”, e logo a mim, tão pequeno. Duas sucessivas escadarias – da avenida Brito Godins até lá acima eram uns bons três metros de desnível -sempre a dizerem-me “sobe mais um degrau”. Era imponente e carinhoso. Foi clássico e era moderno. Liceu de rapazes e de raparigas, liceu de corpo e alma, liceu de Luanda. Ficou-me com o raio do coração.

claustros

Olhem bem para estes claustros. Não são de santidade, são de vida. Acho que ninguém tem vocação para santo. Só se vai para santo depois de se falhar a vocação para demónio. E este liceu foi o projecto de um “Lúcifer da educação”, Monsenhor Alves da Cunha. Foram os ínvios caminhos da santidade que criaram o Liceu Nacional Salvador Correia.

Praxe_da_Carecada

Este foi o meu primeiro dia. Serei eu? Sou, de certeza, eu. Era a praxe, a única praxe, fazer-se uma careca de frade a cada caloiro. Como se entrássemos no mosteiro. Ou seja, antes de entrarmos no mosteiro, era, o nosso último canto profano, mais gentil do que grosseiro, a nossa macia carmina burana. Depois entrávamos: para saber, para uma devoção, a de sermos muito melhores. Era o liceu. Hoje é a escola Mutu Ya Kevela. Guardem-na bem guardada, façam-na crescer.

Liceu pátio

Havia dois pátios. Quem via um quase via o outro – mas só num havia o tanque dos jacarés. E quando digo jacaré, digo mesmo jacaré, réptil, crocodilo, de boca grande, olho de cachucho. Neste pátio, a uma parva insinuação dos meus 12 anos, uma menina de olhos azuis agarrou-me na mão, pôs-ma sobre o já esférico peito dela e disse-me que por mim tinha sentimentos maternais.

Painel Liceu

À sombra deste painel de dulcíssimo Império, atirei, ou vi atirar, que eu ainda era inocente de mais para isso, as primeiras pedras à polícia, em dia de encerramento do ano lectivo. Queimavam-se cadernos, manuais, assinava-se o nome nas batas brancas das meninas, sobre o seio de mel, sobre a coxa de canela.

No campanário do liceu que se vê atrás, havia um ninho de corvos. 7 anos lá estive, 7 anos lá estiveram, outros 7 tinham antes estado, mais 7 depois lá ficaram. Ou, como escreveu Fernando Pessoa traduzindo Edgar Allan Poe:

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

ps – as fotos foram gamadas à malta do liceu que as tem publicado no facebook do Liceu. Com a in-devida vénia, está claro!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a Este é o meu liceu, Salvador Correia, o Mutu

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Querias, Táxi! Isto não é um Liceu, é uma escola privada e isso vai contra os teus princípios.

    • Sou a favor do ensino universitário privado, que causou uma distorção irreparável na economia portuguesa; como o curso com menos custos é Direito, não houve vão de escada onde não fosse ministrado. Quando o país necessitava de engenheiros começaram a formar doutores às catadupas, – doutores em leis, não menos, e já não havia D. Miguel, nem Divodignos para limparem lentes ali para os lados de Condeixa.

      • Eu bazei de Direito em dois tempos. Tenho é pena de não ser engenheiro. Já sabes, Táxi, a vontade que tenho de ajudar o país,

        • Também eu estive, e o Armando, acho que o Dória, também, naquela remessa estiveram todos. Não te lembras de o gajo que trabalhava no departamento, creio que se chamava Carlos, dizer, apontando para o edifício fronteiro, que ali é que estava o dinheiro, e ele próprio era aluno de Direito, hoje deve ser um facilitador de negócios ou cobrador coercivo de contas.

  2. EV diz:

    Até dá vontade de voltar à escola…

  3. llopes49 diz:

    Só desculpo a menção ao Sr.Poe porque o Grande Pessoa está envolvido.

  4. Beatriz Santos diz:

    Tenho pena de não ter um liceu a que chame meu. Mas é que não. Que se pode fazer?! Inventá-lo. For instance.

  5. nanovp diz:

    Aposto que por lá também havia sereias Manuel, e sem grandes sentimentos maternais…

  6. M. Cecília Raposo Magalhães diz:

    Manuel , este seu.Liceu , foi meu também!!
    Tivemos a imensa sorte de lá termos “aprendido”….
    Porventura, até nos termos cruzado..
    O apelido que aqui tenho é o de casada …
    O meu é Sant’ Ana Godinho.
    Obrigada por aqui o ter trazido !
    E que saudades !!

  7. Eunice diz:

    Meu Liceu também, nos anos letivos de 1973/74 e 1974/75. Muitas saudades tenho das pessoas e dos lugares que nunca mais vi, a não ser nas minhas lembranças

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