Morreu Herberto Helder

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Dizem-me que morreu Herberto Helder. Se morreu, é uma morte que Herberto fez questão em anunciar e preparar em “Servidões”, livro no qual, em 10 pági­nas de inclas­si­fi­cá­vel prosa, a que se somam outras 98 com 73 poe­mas, se escrevia um homem e a sua morte. Não foi na realidade que Herberto morreu. Os seus livros andaram sempre muitos passos à frente da realidade. À alta velocidade da sua poesia discursiva, Herberto morreu-se a si mesmo, como e quando quis, sem servidões que não fossem as que devia à linguagem exuberante, eléctrica, animal e vital, de sangue e nervos, que era a sua. 

Só há uma forma de falar de Her­berto Hel­der. É ser sim­ples e claro. Nas­ceu e cres­ceu como era obri­ga­ção dele e nada disso vem ao caso. Inte­ressa é que, desde 1958, a lín­gua por­tu­guesa escrita tem de lhe estar agra­de­cida. Quando publi­cou “O Amor em Visita”, Her­berto Hel­der mudou a geo­gra­fia da lín­gua, a sua moral. Nesse poema e na Poe­sia Toda que é a obra dele, intro­du­ziu uma riqueza lexi­cal que nenhum outro escri­tor da lín­gua, bra­si­lei­ros incluí­dos, se sen­tira auto­ri­zado até então a uti­li­zar. Com Her­berto, a lín­gua visi­tou o inte­rior do corpo humano, des­ceu ao fundo escuro da terra, via­jou cós­mica, sem dei­xar de ser radi­cal­mente vegetal.

Não há um qua­li­fi­ca­tivo que con­siga expri­mir a esta­tura da revo­lu­ção que a poe­sia de Her­berto ope­rou. Deixem-me uti­li­zar a pala­vra moderno, ape­sar da debi­li­dade e insu­fi­ci­ên­cia semân­ti­cas. Her­berto fez moderna a lín­gua. Grande parte da lite­ra­tura do século XX escrita em lín­gua por­tu­guesa, sem pre­juízo do sen­ti­mento, da emo­ção ou, mais oca­si­o­nal­mente, do pen­sa­mento que gera, é lexi­cal­mente serô­dia. Mesmo reportando-nos a figu­ras mai­o­res, quando lemos Pas­co­aes ou Aqui­lino, tal­vez menos mas tam­bém Tomaz de Figuei­redo, encon­tra­mos um sarro rural, uma culpa mise­ra­bi­lista, um esque­leto de pie­doso rea­lismo que ao desinspirar-se des­camba no neo-realismo de Redol e Soeiro Pereira Gomes. É uma lite­ra­tura de samarra e, se esprei­tar­mos bem, de cerou­las. Não cri­tico quem pleite pela neces­si­dade desse retrato social ou da ins­pi­ra­ção telú­rica, e que, a mui­tos, tudo isso sin­cera e muito paro­qui­al­mente comova.

A lín­gua por­tu­guesa de Her­berto é outra. Dife­rente mesmo da de Pes­soa que, sobre­tudo em ele-mesmo ou Álvaro de Cam­pos, a fez futu­rista e uni­ver­sal. Dife­rente da lín­gua do con­tem­po­râ­neo Jorge de Sena que a fez dis­cur­siva e capaz de dia­lo­gar com Debussy ou com Goya. A lín­gua que nos poe­mas de Her­berto se escreve é o triunfo uni­ver­sal da ima­gi­na­ção, é a lín­gua uti­li­zada por um cére­bro que usa a metade esquerda e a metade direita. Amo­ral, a lín­gua de Her­berto Hel­der exibe a volú­pia do luxo, a volú­pia da liberdade.

O luxo é, essen­ci­al­mente, lexi­cal: nele não há rasto das pala­vras que à exaus­tão foram o estan­darte rea­lista. Na poe­sia de Her­berto sur­gem har­pas, cra­te­ras, pólipo, mamilo, mãe, fenda, sexo, meta­mor­fose, carne, veias, mens­tru­a­ção, péro­las, prata, pla­ne­tas, áto­mos, constelações.

A liber­dade é gra­ma­ti­cal e asso­ci­a­tiva. Como um cen­tu­rião romano se per­mi­tia o pra­zer recon­for­tante da sauna, assim Her­berto ofe­re­ceu à gra­má­tica a entrada na lite­ra­tura. Os adjec­ti­vos e os advér­bios sen­tem os mús­cu­los soltar-se, gerún­dios e par­ti­cí­pios pas­sa­dos des­co­brem que afi­nal fun­ci­o­nam arti­cu­la­ções que jul­ga­vam ossificadas.

Mas a liber­dade maior é a asso­ci­a­tiva: a sua poe­sia dá a uma jovem mulher um arbusto de san­gue, a figuei­ras pul­mões de esponja branca. Na lín­gua de Her­berto pode sentar-se a pai­sa­gem numa cadeira e lê-la com extrema violência.

Permito-me a doçura de um lamento. A poe­sia de Her­berto é cur­va­mente nar­ra­tiva. Povo­ada de cor­pos, um tor­cido dorso à volta da sua dor, anun­cia his­tó­rias, a meta­mor­fose de per­so­na­gens, o espasmo de uma feli­ci­dade por vezes amarga. Essa dimen­são roma­nesca testou-a o poeta num livro de con­tos, “Os Pas­sos em Volta”, que é uma das mais belas expe­ri­ên­cias fic­ci­o­nais da lín­gua por­tu­guesa. Em “Polí­cia”, um dos con­tos, vivido por um clan­des­tino em Bru­xe­las, conhe­ce­mos a amante com que sem­pre sonhá­mos, Anne­ma­rie, aquela a quem foi con­ce­dido o dom da poe­sia sub­ver­siva: “Anne­ma­rie despiu-se e deitou-se nua sobre o cober­tor enquanto eu ten­tava aque­cer um pouco de água. Falá­mos lon­ga­mente da chuva, do amor e das leis”. A poé­tica des­ses con­tos faz-nos sonhar com o que pode­ria ser um romance de Her­berto Hel­der. A forma alu­ci­nante e tão pre­cisa como des­creve, a sur­presa das situ­a­ções (“Eu digo o teu cabelo. Ela está aga­chada junto à cama, pro­cu­rando um sapato que se extra­viou”), a sime­tria das fra­ses, os finais asser­ti­vos, deve­riam ter-nos dado o romance que, depois de Eça, a lín­gua por­tu­guesa pre­ci­sava de ter para se jun­tar aos roman­ces de Agus­tina e à excep­ção de “Os Sinais de Fogo” de Sena.

Basta que nos tenha dado a poe­sia toda. Deu-nos lume, o incên­dio de ver­sos lon­gos. Esta exu­be­rân­cia, esta cri­a­ção lím­pida é única na lín­gua por­tu­guesa. Pode­mos encontrar-lhe fôle­gos de Whit­man, a inten­si­dade de Dylan Tho­mas, ou procurar-lhe nos ver­sos o rumor humano, antiquís­simo, de Fran­çois Vil­lon. Em por­tu­guês não, não tem ante­pas­sa­dos: Her­berto Hel­der está con­de­nado à bran­cura explo­siva da originalidade.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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22 respostas a Morreu Herberto Helder

  1. Jaime Duarte diz:

    Creio que Herberto ira ler o que escreveu.Tristemente…

  2. riVta diz:

    Li e reli.

  3. adelia riès diz:

    Que bonito que é o seu texto.Partilho.

  4. G. diz:

    Obrigada, o seu texto vai bem com HH. Foi muito bom lê-lo.

  5. nanovp diz:

    Um pouco de beleza num dia de negro.

  6. Veremos, veremos, Julguei-o poeta, depois li que os seus livros já eram especulação nos alfarrabistas antes mesmo de serem publicados, não estava mal pensado, dinheiro, bom dinheiro, a trocar de mãos, cura, como nos consultórios lacanianos. Se ele deu ordem terminante, proibindo a reedição de qualquer livro depois da sua morte, terá estatuto de poeta, se não, então, é apenas um gajo esquisito.

    • G. diz:

      Bem sei que o direito à opinião a todos assiste, ou não viesse Charlie lembrar-nos da coisa, mas não imagina o quanto me custa ler-lhe comentário tão pobre, tão fraco de conteúdo, porque, acredite, não há necessidade de gostar do poeta para o saber poeta. HH foi, é e será um dos maiores escritores portugueses de sempre da língua portuguesa. Confundir o poeta com o homem, não só é injusto, como desadequado.

      • Ele seria poeta se afugentasse os procuradores de ouro, os filhos de pouca memória, que do Charlie recebem a versão oficial e, por vaso comunicante, a propagam, o cliché é uma constante da vida, já se sabe; não sendo o caso, ele será poeta se proibiu que alguma vez mais a sua obra fosse publicada, se o não fez, não passará de um bibelot em cima de um psiché; para os consumidores de grandiosidade há as páginas amarelas. É essa a função do poeta, qualquer poeta, conciliar o povo com a sua língua, isto é, pô-lo a ler a Dica da Semana e a restante publicidade postal, aí sim, remanseia o sempre da língua portuguesa.

        • G. diz:

          A “função” do poeta é conciliar o povo com a sua língua? Atribui funções de curandeiro ao poeta, ou de ministro da educação.

          • Claro que a função principal é vender livros, Hélder resguardou-se disso, e muito bem, duvido que o ministro da Educação tenha alguma relação, mesmo remotamente, com a língua, parece que no cratès houve (ou haverá) uma troca de “competências” por “capacidades” na aprendizagem da língua, mas isso é momentâneo, amanhã inventar-se-á outra maravilhosa pedagogia; no caso do poeta, sim, é um geógrafo, visto mudar a “geografia da língua”.

    • Um bocadinho terrorista à outrance, estimado Táxi. Velhinho de fraldas e ainda a épater le bourgeois? Chato é já nem haver bourgeois.

  7. Fausto diz:

    Caro Manel às suas palavras adiciono (ousadia?) o que escreve hoje o MEC:
    “Não é preciso dizer nada. Sequer o nome dele. A ventania, toda a noite e dia, disse tudo. Se é verdade que o vento leva as palavras, as palavras dele não eram palavras: eram o vento. E o vento vem sempre ter connosco. Volta.
    Não é preciso citá-lo. Dele se pode dizer que conseguiu, com divina dificuldade, dizer tudo o que tinha para dizer, se dizer é tornar ditas as coisas indizíveis das quais qualquer língua nos separa, não sendo a portuguesa a mais separadora.
    Morreu quando disse que morreu. Escrever é uma coisa que se faz bem. Dizer é outra coisa. Não é qualquer um que diz e deixa dito. Contando pelos dedos não é quase ninguém. Contando pelos olhos que lêem e pelo barulho que levam à barriga da alma era só ele.
    Tudo o que ele disse ficou dito. Não era maior do que ele: era do mesmo tamanho do que ele. Esta não é a melhor maneira. É a única maneira de dizer: a glória. Que não é só a glória da obra dele mas também a glória que era ele.
    A beleza e o poder, a mentira, a invocação, a propaganda da poesia, a abertura da cabeça para o corpo: todas estas magias só eram humanas nele. Para ele apenas faziam parte da prática de viver. Para ele – apetece-me exagerar, como ele exagerará sempre – eram apenas pela poesia.
    A poesia é que é. Ele é o poeta do que a poesia é. Mas, acima de tudo, a morte dele – um ser humano que, se não tivesse escrito um só verso, não poderia ser mais amado – é uma tragédia para a família e para os amigos que o amavam.”
    Um abraço,
    FLC

  8. filipe diz:

    É raro vir aqui. Mas quando venho, venho sempre com gosto, porque há sempre qualquer coisa que se me acrescenta. Estava longe de sonhar que seria incitado por si – logo por si – a ver o “Kingsman”, o que é mais revelador da minha estreiteza de vistas do que da sua – enorme – cinefilia. Mas voltei aqui porque desconfiei, enquanto lia a notícia de HH na net, que haveria um lugar onde as palavras sobre o poeta lhe fariam jus e preencheriam quem lê. Obrigado.

    P.S.: não lhe parece que o último – um dos dois que li, o outro foi “Os Passos em Volta” – se afigura com um testamento em forma de poesia? Quando o li pela 1ª vez, na altura em que saiu, pareceu-me, ontem, ao voltar a ele, a sensação ficou-me mais nítida.

  9. Soube bem lê-lo neste dia, Manel.

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