Noite, meu amor

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Casa Voadora, de Laurent Chehere

O meu gosto, em tudo, é de uma funda Tristeza. Livros, filmes ou música, uma escura rua ou certas horas da noite, a futura solidão dos dias, para o meu gosto nunca nada é Triste demais. Quase nada do que é Triste é suficientemente Triste.

Abro, na poesia portuguesa do século passado duas excepções a roçarem, não sei se a mais admirável e Triste genialidade, se a mais admirável e genial Tristeza.

Estou a pensar neste poema de Gastão Cruz:

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

E, de Jorge de Sena, neste soneto, o XXI, de “Evidências”:

Cendrada luz enegrecendo o dia,
tão pálida nos longes dos telhados!
Para escrever mal vejo, e todavia
a dor libérrima que a mão me guia
essa me vê, conforta meus cuidados.

 Ao fim terrível que me espera extenso,
nenhum conforto poderei pedir.
Da liberdade o desdobrado lenço
meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
ou pensarei quando de mim fugir.

 Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
ó minha vida, eu nunca disse nada.
Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
E a dor é evidente — libertada.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Noite, meu amor

  1. E acordar after night…

  2. Maria João Freitas diz:

    Manuel, a isso chama-se ter o vício da tristeza. Ou da triste genialidade, por oposição à estéril felicidade.

  3. EV diz:

    Tão bela tristeza.

  4. Beatriz Santos diz:

    Hoje há sol e a tristeza profunda fica mal com o luminoso soalheiro. Talvez a gente deva libertá-la, a ver se voa. Quem sabe, ela o faz e voa aquilo que nós não voamos.

  5. nanovp diz:

    “Quase nada do que é triste é suficientemente triste…” talvez porque tragicamente, tristes somos nós e não as coisas à nossa volta…

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