Os dedos sim, mas perdoa-me meu amor não ter tempo

KNOPFLI

Fui, nos anos 70, leitor breve e intermitente de Rui Knopfli, poeta português que o desmembramento do Império fez moçambicano. Ou que, quando ainda soavam os surdos tambores do Império, se sonhou o moçambicano que, depois, descobriria ser só nacionalidade desapossada, ao ponto de não poder ter outra que não fosse enfiar-se no passaporte que era a língua de Drummond, Sena ou Herberto, fosse qual fosse a nacionalidade peregrina e infecta de todos eles. Estas coisas digo-as eu, que Knopfli não disse amarguras destas, ou se as disse, disse-as com outra intimidade e vertigem.

Voltei agora a ler, na velhinha edição da Moraes, capa de um castanho cor de cartucho, cartolina grosseira, “O Escriba Acororado“. Um dia, prometo, de tanto me prometer a mim mesmo, ter tempo para ler mais e ler Knopfli todo, o “Reino Submarino“, as “Mangas Verdes com Sal“, “A Ilha de Próspero“, livros de um poeta maior do final do século XX. Eu quero ter tempo, porque só com tempo se pode amar, e a poesia, como vão já ver, pede a língua, os dedos e o mesmo tempo que o convulsivo amor pede.

Por mais tempo que tenha, por mais comércio do amor que nesse meu tempo futuro eu venha a entreter, nunca poderei explicar este poema que abaixo copio e a que Knopfli deu o título de “Heróis e Mitos“. Não só porque os poemas nunca se hão-de explicar, mas também porque, mesmo que pudessem ser explicados, eu não tenho a egípcia arte de acocorar que define e caracteriza o iridescente e agudo escriba.

Neste “Heróis e Mitos” a única coisa que a mim mesmo consigo dizer é que, lendo-o, estou num quarto e longinquamente fora desse quarto. Os versos de Knopfli põe-me no teu desconhecido quarto de leito voraz, sexo, sexo e táctil chama que queima mais do que alumia. E, depois, num encavalgamento livre e sem rima, relativista ou quântico, saltamos no tempo e no espaço para o tempo de Tróia, da homérica guerra e de um verso em que eu e todo o leitor choramos Heitor como nunca antes e nunca mais Heitor será chorado.

Mas a seguir – que se foda o recorrente e derradeiro herói Heitor – abre-se no poema a cama do amor.E Rui Knopfli, seja lá qual for a sua nacionalidade, faz versos de amor com uma variedade e perversidade semânticas e lexicais que qualquer dicionário da língua se põe a soprar pelos lábios e a dar dós de peito. Sim, há Drummond e há Sena. Também o erotismo deles era discursivo, amplo, pendular e carnal.  Mas em que poema ou verso é que alguém cantou assim o “aveludado / ânus timidamente aberto à terna, /cruel, paciente escrutinização digital“?

Este é o poema, retirado do livro “O Escriba Acocorado“. Depois de o lermos, nenhum dedo voltará a ser o mesmo dedo. Leiam, então o  IV dos XV poemas que o livro contém.

Heróis e Mitos

Outro ano, outro Abril sem amenidades.
Pai, a tua lembrança e a lenta dinâmica
corruptora do tempo. Faço amor
convulsivamente junto ao teu leito
de morte, a minha boca na sua

liquefeita. Este corpo, este corpo
ágil e erecto, liso barro rigoroso,
a táctil chama do meu sexo
cauterizando-lhe a voracidade das entranhas.
Em breve choraremos Heitor, Pai,

sobre ele se abaterá a ira
implacável de Aquiles, o instante
percutido até à eternidade. No gineceu
Hécuba, absorta e envelhecida, lê
horas a fio, de Hermann Broch

a James Hadley Chase. Sexo,
sexo, minha estação, meu alcalóide
total. O húmido apaziguamento
da língua e dos lábios na flor
iridescente do seu sexo. O aveludado

ânus timidamente aberto à terna,
cruel, paciente escrutinização digital.
Com bem fundados motivos receamos,
Pai, pela sorte de Heitor à mercê
da cólera de Aquiles. As armas

refulgindo dentro do fogo, o olhar
esventrado da Hécuba e nos teus
olhos atónitos, Pai, no descolorido
das tuas pupilas inertes, uma agonia
impartilhável. Gravado em caracteres

cirílicos, já do outro lado dos muros
sobe em meio de alta grita o inumano
gargalhar dos deuses. Este corpo,
gráfico da minha clara obsessão
(a quebrada, entorpecente, enleante

curva de rins! o latejar de flancos,
o arquear de nádegas, a desconcertante engrenagem
de calcanhares, ombros, joelhos, mamas!,
as frágeis, nervosas inserções de maravilhosa
surpresa!), este corpo, este precário

universo vulcânico vertiginosamente
equilibrado em torno do seu eixo masculino.
Livra-nos da suprema humilhação,
cobre-me os olhos, cobre-me os olhos
de beijos, inunda-me os ouvidos com

a música dos teus sentidos, dilacera-me
o sexo na fome trituradora do teu desejo,
implora a trégua do sol, a discrição
do tempo. Poupa-nos à profanação
do despojo, diz-nos que o touro escarnecido,

de borco na arena, a língua pendente,
o olhar envidraçado, não corresponde
à hierática e varonil imagem daquele
que era o primeiro dentre os príncipes.
Possas tu, Pai, do teu silêncio atónito

perdoar-me renúncia e cobardia.
E tu, dá-me o conforto nocturno
do teu corpo de sol, o torpor
dos teus braços, a memória do teu
sangue, o olvido do teu ventre.

E em mim não dormirá o esquecimento.
Restos de endométrio, pista sanguinolenta
que obscura e descomunal vagina
tivesse vazado pelo solo de escalracho,
eis o derradeiro rasto do herói.

RuiKnopfli

Rui Knopfli

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Os dedos sim, mas perdoa-me meu amor não ter tempo

  1. Pedro Bidarra diz:

    E eis que volta o tema… eh eh
    Nunca fui de me consolar/comover ou entreter com poesia erótica. Só o Sade gostei de ler, a Filosofia da Alcôva. Mas era filosofia, lá está, não era poesia.

    • Já eu, Pedro, gosto de filosofia, de poesia, de romance e de prosa jornalística. O poema do Knopli também é erótico, como é, aliás, épico, guerreiro e elegíaco, mas é sobretudo grande poesia.

      • Pedro Bidarra diz:

        Lá isso é. E é tão dificil. Não sei quem foi o irlandes que disse, mas foi um irlandes: novels good; plays better; poetry best

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