Poesia de combate

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Gosto do poema “The Gods of the Copybook Headings” do Kipling. Talvez por ser sobre a marcha do Homem, não em frente, mas em círculos. Já uma vez aqui o postei, em inglês. Agora faço-o em português e a culpa, ou melhor, a desculpa é do convite do Nuno Miguel Guedes e do Alex Cortez. Eu explico:
Todas as segundas-feiras aqueles duas poéticas almas organizam noites onde se pode ouvir poesia dita por gente que a isso se presta. Não só a poesia tende a ser da boa, como os declamadores são quase sempre irrepreensíveis; e, quando não, são afortunadamente acompanhados de músicos que com as suas notas e harmonias amaciam a dicção, como a vaselina amacia a pele.
Na última segunda-feira o tema era Poesia de Combate, e os combatentes, ou melhor, os soldados, porque os combatentes eram os poetas, foram a Joana Amaral Dias, o Joaquim Paulo Nogueira, o Luís de Carvalho e eu. Por lá passaram as palavras do Brecht, do Ary, do O’Neil, do Gomes Ferreira, do Sena, do Cohen e do Lou Reed, entre outros; palavras que foram muito bem ditas, com exaltação e temperança q.b., conforme o texto pedia.
Eu, na minha pueril mania de ser do contra, resolvi levar um poeta que nada tem que ver com a resistência, o socialismo ou o anti-fascismo, antes pelo contrário. Assim escolhi um convicto imperialista, muitas vezes chamado de fascista (que não era, até Orwell o admitiu), malquisto e renegado em quase todas as capelas das letras. Mas que o homem escrevia, escrevia. E que tinha uma imensa capacidade para ver além, como um batedor na fronteira, tinha. Dele disse Eliot, que era um extraterrestre, que via e sabia coisas que outros homens não eram capazes.
O Kipling de que eu mais gosto é os contos; mas há dois poemas que gosto muito: o que aqui deixo, vertido em português, e o Mary Gloster (que ficará para outra vez).
“The Gods of the Copybook Headings” foi escrito em 1919, no fim da 1ª Guerra Mundial, onde Kipling perdeu o seu filho de 19 anos. Kipling viveu a primeira vaga do capitalismo e a primeira vida dos modernos mercados; uma vaga que terminou com as duas grandes guerras e que resultou no fim das monarquias europeias e na ascensão da democracia e dos estados democráticos.
Hoje, dá a ideia de estarmos a viver o fim da segunda vaga do capitalismo. O que virá não se sabe, mas, se a História serve de sinal, é de esperar mais uma mudança nos mapas e nos regimes. O que temo, não no sentido profético, mas de temor (mesmo) é que a terceira vaga acabe com os nossos regimes, as democracias, pelas mesmas razões que a segunda vaga varreu as monarquias: por húbris, de quem se recusa a ver, e ineficiência do sistema. Foi por isso que escolhi este poema. Os Deuses do Mercado, de que se fala no poema, são os mesmos de hoje, como os mercados, de então, são os mesmos mercados; mas são também os deuses do materialismo, os deuses das coisas de que todos gostamos e queremos ter.

O tradução que fiz começou com a intenção de ser apenas uma cábula para contar o poema – que foi escrito com os ritmos e as rimas da língua inglesa. O que tinha planeado, para a sessão da Poesia de Combate, era contar o poema como se conta um filme a alguém que o não viu. Começaria por explicar o que eram os copybook headings – títulos nos velhos livros de cópia, com frases da sabedoria popular e do bom senso, que as crianças copiavam, linha após linha, para exercitar a caligrafia. Depois diria que este poema era narrado pelo Homem – esse mesmo, o do agá grande – e depois começaria com o: “Ele diz isto, Ele diz aquilo” e por aí fora. No fim, depois de o contar, passaria o poema declamado por um actor inglês. Assim fiz; mas, no processo, verti a coisa que aqui deixo.

 

Os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia
(Rudyard Kipling)


Diz o narrador que:

À medida que vai reencarnado, em diferentes raças e idades,
humildemente, tem-se prostrado aos Deuses dos Mercado;
por entre dedos reverentes, vê-os florir e murchar;
mas, tem reparado, os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia não morrem nunca.

Vivíamos ainda em árvores quando eles nos mostraram,
que quem anda à chuva molha-se e que quem brinca com o fogo queima-se.
Mas todos os achámos parcos de Elevação, de Espírito e de Visão.
E por isso deixámo-los a ensinar gorilas e seguimos a marcha da humanidade.

E assim fomos andando com o espírito dos tempos. Já eles nunca alteraram o passo
– ao contrário dos Deuses Mercado que andam ao sabor do vento e das nuvens –
mas mais cedo ou mais tarde lá nos alcançavam, ao mesmo tempo que chegavam notícias
de mais um povo aniquilado nos gelos, ou que a luz se apagava em Roma.

Das crenças sobre as quais construímos o nosso mundo, Eles andavam desfasados:
negavam que a lua fosse um queijo; e muito menos que fosse holandês;
negavam que os desejos fossem cavalos e que os porcos fossem alados.
E por isso nós adoramos quem tudo prometeu: os Deuses dos Mercados…

Durante o Cambriano prometeram-nos a paz perpétua
jurando o fim da guerra entre os povos se todos largassem as armas.
Mas quando desarmámos, Eles ataram-nos e venderam-nos ao inimigo;
e os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia disseram: mais vale o diabo conhecido…

Depois escreveram na areia a promessa de uma vida cheia, plena de sorte:
uma vida que começava por amar o vizinho e, assim que possível, a sua consorte;
até que deixaram de nascer crianças e os homens perderam a fé, a razão e o norte;
e os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia disseram: o preço do pecado é a morte.

Durante o Carbonífero, os Deuses do Mercado prometeram abundância a rodos;
não era preciso trabalhar, só roubar quem mais tinha e distribuir o roubado por todos;
Mas mesmo havendo muito dinheiro, não havia nada para comprar, apenas fome;
e os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia disseram: Quem não trabalhar não come.

Então os Deuses do Mercado caíram, e seus arautos de língua fácil calaram-se.
E mesmo os piores, de mais mesquinhos corações, voltaram a acreditar,
que nem tudo o que luz é ouro, e que um mais um não são três.
E os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia, com calma, explicaram tudo outra vez:

Que assim será no futuro, como foi desde o princípio do Homem;
e que até hoje todo o progresso humano só nos trouxe quatro certezas:
que o cão volta sempre ao seu vómito e o que o porco volta sempre à lama;
E que o estúpido que se queimou no fogo, há-de voltar com o dedo à chama.

E que quando tudo isto for entendido, e o admirável mundo novo, de novo voltar,
e homem for outra vez pago para existir e nada pelos pecados pagar,
tão certo como, quem anda à chuva molha-se e quem brinca com o fogo queima-se,
com o terror e a barbárie, os Deuses dos Títulos dos Livros de Cópia hão-de voltar.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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6 respostas a Poesia de combate

  1. Quando os deuses vão ao mercado…

  2. adelia riès diz:

    Partilhei

  3. Isabel diz:

    ainda existem essas segundas feiras, noites de poesias
    ?

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