Pornografia e sagrado, sagrado e pornografia

arakiAntonello_da_Messina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A miséria fotografa muito bem a preto e branco. O erotismo também. A cor introduz quase sempre alguma obscenidade na miséria. Por maioria de razão no erotismo. O preto e branco oferece à miséria e ao erotismo uma beleza prudente, defendendo-os do luxo, da volúpia e do excesso.  A esquerda, se pudesse, faria toda a arte a preto e branco. Porventura abstracta. O descontrolo pagão, piedoso ou barroco – tanto faz – enxofra um bocadinho o clero secular de esquerda (e algum, diga-se, é também de direita).

O sagrado e a pornografia reclamam cor. No sagrado e na pornografia pressente-se a mesma energia. Sexual. Que roça a violência. Nada é mais impuro do que o sagrado, nada é mais desconfortável do que a obscenidade da pornografia. E por isso, o sagrado e a pornografia, exigem uma intimidade inviolável.

Experimentei juntar alguma pintura ocidental que lida com temas religiosos e as misóginas fotografias do japonês Nobuyoshi Araki. Têm pelo menos um elemento em comum, o uso de cordas que amarram os seus modelos. Se, para além das suas brilhantes e torpes utilidades, a corda for símbolo de alguma coisa, há-de ser de submissão. Outros dirão de humilhação. Lembraram-me, todavia, que nos ritos mágicos a corda é o precedente maternal do aparecimento de uma serpente e que, nas mitologias escandinavas, com cordas se prendem ventos tempestuosos.

Olho as reproduções destes quadros e destas fotografias e sinto que comungam no fascínio pelo corpo nu, flagelado, submetido a uma violência ritualizada.

Não paro de olhar: os nus masculinos da pintura quinhentista e os nus das fêmeas de Araki são o elemento mais poderoso destes quadros. Não são fracos, nem pedem ajuda. Exibem corpos tensos que reencontraram a consciência da própria carne, da sua maleabilidade e dos limites que aceitam transgredir. 

As mãos

Adriaen-Isenbrant-C-crowned

Araki b

 

 

 

 

 

 

Adriaen Isenbrandt é um pintor flamengo do século XVI. Os clientes da sua oficina eram comerciantes abastados. Desculpem-me por, do seu “Cristo coroado com espinhos e a Virgem chorosa”, me fixar apenas no pormenor que são as suas mãos. Poupo-vos à imagem do filho flagelado, coroado de espinhos, semi-nú e por isso constrangido, junto à mãe compungida.

As mãos do homem pintado fecham-se sobre o seu corpo, resignadas. Na fotografia de Araki (a preto e branco, hèlas), as mãos da mulher abrem-se, as palmas viradas para o exterior, os dedos numa agitação caótica, mais num delírio liberto do que prontas a segurar ou a servir.

A tensão

cristo-com-corda-ao-pescoço-sec-xviii-

ARA-11-6-7small

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este Cristo com uma corda à volta do pescoço data do século XVIII e é um belo exemplo de arte colonial. Será um trabalho piedoso dos índios paraguaios dos jesuítas, os que ficavam nas reducciones, atingindo elevado grau de avanço social e fusão artística? A simetria dos braços, a simetria das pernas, o rigoroso alinhamento dos cabelos, a intensidade muda da figura, dizem que sim, que será certamente o trabalho de um artista guarani.

Este Cristo é um corpo que se libertou das cordas ou que aguarda – impaciente, dir-se-ia – essa coacção? O dela, o da modelo de Araki, é um corpo sereno, repete dele a simetria das pernas e dos braços, mas sem tensão, a pele lisa, macia, opondo-se às marcas de paixão do corpo masculino, a brancura asséptica da pele contrastando com a irrupção dos glóbulos vermelhos da pele crística.

A suspensão

Perugino-2-men-in-yhe-gallows

004ARA-821-08-2

Aqui, vemos São Jerónimo segurando dois enforcados pintados por Pietro Perugino, que terá frequentado a mesma oficina onde Da Vinci foi, como ele, aprendiz. É um quadro do começo do século XVI.

A suspensão dos enforcados não é angustiante. A São Jerónimo, podemos imaginá-lo incorpóreo, apenas um rosto sobre uma túnica vermelha que disfarça o puro espírito que está por baixo. E é o amplexo do santo que impede os dois rapazes de sufocarem, conferindo aos enforcados uma graça serena e um erotismo apolíneo.

A mulher de Araki revela um desconforto maior. A ampla abertura das pernas, o bloqueio da circulação do sangue, as mãos amarradas atrás das costas, a pressão das cordas no pescoço e nos esmagados seios, não impedem, mesmo assim, que a boca se entreabra vermelha e os olhos se fechem antecipando a polpa de outros dedos, a coincidência de outra epiderme que lhe sussurre “ainda és melhor de frente do que de trás”.

A auréola

ARAki b

Ecce-Homo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este homem, aquele que foi mais do que todos ecce homo, é de autoria desconhecida, datado do século XVI, embora os padrões pareçam ser os do século XV. Suplício: a corda que vai do pescoço às mãos. As costelas riscadas no peito denunciam, tanto como a cova no ventre, a respiração agitada. A túnica cobre-lhe o olhar – olhos fechados, só olhar velado. O que faz ali a gloriosa auréola, o brilho dourado, o vermelho e veemente recorte da cruz?

Na jovem mulher japonesa, o olhar mortificado (porquê? pela impertinência da humilhação?) faz a ponte para a imagem crística. A flor no sexo é o equivalente à auréola sagrada, inesperado luxo e ademane exuberante no recato da pequena e líquida gruta.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

12 respostas a Pornografia e sagrado, sagrado e pornografia

  1. “Na jovem mulher japo­nesa, o olhar mor­ti­fi­cado (porquê? pela imper­ti­nên­cia da humi­lha­ção?) faz a ponte para a ima­gem crís­tica. A flor no sexo é o equi­va­lente à auréola sagrada, ines­pe­rado luxo e ade­mane exu­be­rante no recato da pequena e líquida gruta.” Bem… isto é uma esparregata intelectual de todo o tamanho… excepto, talvez, na questão da energia expelida pelas fotografias… Só que num caso, a energia é erótica, brutal, impetuosa, apelativa, mesmo… no outro, é uma energia que apela à compaixão, à piedade, ao recolhimento… Extremos opostos, diria.

  2. Penélope diz:

    Pornografia a religião comungam na subserviência a um Senhor. A analogia faz sentido (e a escolha das imagens que a ilustram foi muito feliz).

  3. O primeiro livro porno no mainstream foi a Bíblia. Relacionado: “a cula”, poderá parecer, aos olhos leigos, o feminino de cu, logo estaria em tema com o porno religioso, (onde o diabo guarda os padres descoberto por Pasolini), mas não, significa “para Moçambique crescer”

  4. EV diz:

    Manuel Fonseca!… Plasma estas coisas a um domingo, coisa santíssima e eucarística, e no dia da mulher, coisa profana e internacional. Depois admire-se se lhe entrar por aqui adentro a brigada das beatas e a da femina sapiens, umas a gritar ata-me e as outras desata-me.

    Sobre o significado umbilical das cordas falamos depois…

  5. Beatriz Santos diz:

    Não me apeteceu ler tudo. Mas vi – ver é mais rápido, vê-se mesmo quando andamos à procura da caixa para comentar.

    Comentário a sério: o Nuno Artur Silva tem a boca do primeiro Cristo.

  6. M. diz:

    Muito interessante o paralelismo.
    Eu só soube que bondage é uma prática quando já tinha cinquentas.
    Fui atrasada em tudo – desconhecia que havia lésbicas, ou que os “maricas” faziam sexo anal ou que as mulheres faziam sexo oral aos homens, etc., até aos 18 ou 19 anos anos, acho… Muito entretida andei eu em
    caça aos fuka-fukas,
    exploração-de bicicleta-das barrocas que mais tarde se tornaram “zona verde” chique,
    campeonatos de corridas de escaravelhos daqueles que faziam bolas de cócó,
    passeios pelo morro da samba onde encontravamos picos de porco espinho,
    apanha de gafanhotos gigantes,
    tentativa de domesticação de enormes louva-a-deus – a quem dava pedacinhos de carne a ver se se mantinham por perto,
    apanha de cavalos marinhos nas colunas do cais do Kaposoka,
    campeonatos de “quem consegue mergulhar mais fundo e durante mais tempo” na praia dos rotários ao longo do desnível que suavemente nos levava ao fundão da baía.
    Et pourtant vivia rodeada de rapazolas. Acho que também eles souberam de extravagancias sexuais muito mais tarde. O mais pornográfico que fazíamos era espreitar os compêndios de medicina do meu pai, nas páginas das doenças de pele, para vermos homens e mulheres integralmente nus. E riamo-nos imenso.
    Enfim, tudo para dizer que fui apresentada ao bondage num documentário de tv e nem uma décima de segundo se mostraram imagens “chocantes” como estas. Era um homem bem mais velho que embrulhava cuidadosamente e em desvelos de nós, uma rapariguinha linda e muito branca – como se embrulha um sofisticado e raro e lindo presente – . Num cuidado inenarrável. Não sei se estou errada mas o verdadeiro bondage tem nada de pornográfico. É uma arte refinada e cuidada. E nem me parece que – o genuíno – provoque dor às mulheres. Que não se humilham pois que se entregam.
    Por isso achei interessante o paralelismo com a Paixão de Cristo. Que não se humilhou. Entregou-se para salvação dos Homens.
    E achei graça à referência ao humano gosto pelo uso das cordas. Também tive disso lá pelas barrocas. Tão depressa era cowboy e ferozmente amarrava os indios como me transformava em doce mohícana e entregava os pulsos…
    Muito boa esta espécie de ensaio. Gostei, como faria no facebook…

  7. joão diz:

    imagens eróticas até de Cristo?!gostei da japonesa!excelente site!parabéns!

Os comentários estão fechados.