Antes que eles morram

taca-cognac-convention-505ml-schott-0206006701001_zoomSaímos de Denver ao fim do dia pela estrada 70 em direcção a oeste. O sol baixo ainda alaranjava a neve nos cumes recortados no azul, mas o termómetro do carro já indicava -10ºC. Em menos de uma hora seguíamos emparedados nos desfiladeiros nevados das Rocky Moutains, os mesmos desfiladeiros que serviram de cenário a John Wayne em True Grit, e por onde, muito antes, passaram milhares de colonos europeus à procura da Califórnia. Nós éramos três e não íamos à procura de nada a não ser das montanhas e da paz que delas exala.

A meio da viagem, talvez já perto de Frisco, o amigo que ia ao volante entrou sem querer por uma zona de descanso de camionistas. Era de noite, nevava, o termómetro marcava -15º e estávamos cansados. Quando eu e o Zé acordámos, vimo-nos rodeados de monumentais camiões e de não menos monumentais camionistas. Seguir-se-ia um momento de tensão motivado pela memória de inúmeras narrativas cinematográficas? Nem por isso. O Zé virou-se na minha direcção e desculpou o nosso amigo condutor dizendo: “Sabes como é, o gajo tem atracção por zonas de descanso de camionistas… Ainda por cima aqui na América, onde ninguém vê, tem finalmente oportunidade para sair da cabine.” A conversa que se seguiu, hilariante e inenarrável, não tem interesse absolutamente nenhum; foi uma conversa de amigos, num carro a subir as montanhas.

Em todas as caravanas em que tenho viajado — em direcção ao meu oeste, à procura do meu El Dorado — encontrei sempre um ou dois companheiros de viagem que, com o andar da carruagem, se tornaram meus amigos. Alguns deixaram a caravana porque decidiram ficar e assentar arraiais num lugarejo que os chamou e não os deixou partir; outras vezes separámo-nos numa encruzilhada e depois, anos mais tarde, voltámo-nos a encontrar à chegada a um lugar qualquer, porque afinal os nossos caminhos iam lá dar; outros seguem comigo, e eu com eles, grande parte do caminho. Este texto é para eles todos.

Tinha estreado o Blade Runner. O filme era negro q.b., lembrava Dashiel Hammet e Chandler — narração em off e na primeira pessoa — tinha replicants — a primeira traição ao romance de Philip K. Dick onde estes seres se chamavam androides — e era chuvoso e sujo. Finalmente os poseurs, que tentavam conciliar todos os ismos de que eram feitos — o esquerdismo, o realismo, o conceptualismo, o freakismo — com o arrebatador folgo criativo vindo do grande satã americano, diziam bem dum filme de ficção científica; e tinham algo para contrapor à Guerra das Estrelas. Aquilo irritava-me. Não por causa do filme, mas porque de repente aquela malta toda concordava com toda a outra malta; e quando toda a gente começa a concordar, eu tenho a reacção visceral do contra.

Eu e o Edgar não tínhamos visto o filme. Recusávamo-nos, por princípio. Se aquela gente toda, que dizia mal da Guerra das Estrelas, do Conan, do Big Wednesday e da Estrada do Fogo, dizia agora bem do Blade Runner, então nem o íamos ver; o que, claro está, não nos impediu de falar sobre ele. Um dia discutimos o filme, clamorosamente, com um acólito do cinema português. Ele argumentava bem do filme, nós mal. Ele falava do Philip K. Dick, nós, com fervor proselitista, referíamos o texto original. Ele dizia “e aquela cena fabulosa” e nós argumentávamos que era uma cena mal roubada a um outro filme qualquer que nos apressávamos a citar. Ele dizia alhos, nós rebatíamos bugalhos e caralhos. Quando finalmente os nosso argumentos começaram a ficar sem resposta, e o interlocutor capitulava em silêncio, resolvemos dizer, maldosamente, que nem sequer tínhamos ido ver o filme. O pobre interlocutor, amuado, mandou-nos foder. Nós rimos. Eu ri tanto, tanto que tive um ataque de asma. Ainda hoje, quando rio estupidamente, levo a mão ao bolso à procura da bomba que já não preciso.

Sem siso, sem vergonha do riso e da gargalhada sonora, gente livre: são os meus amigos.

No fim dos anos 80 o Pedro Ayres precisava de um amigo e de um ouvido para a gravação do disco “Os Dias da Madre Deus” na Igreja do Beato. O disco ia ser gravado em directo e em duas pistas apenas — uma das primeiras grandes produções lo-fi — e não havia modo de gravar instrumentos separados nem de “picar”, como se faz nos estúdios. Tudo tinha que ser gravado durante a noite por causa dos ruídos da rua que, ainda assim, teimavam em aparecer pela calada. Daí o ouvido. E depois havia problemas de afinação — há sempre que se gravam instrumentos acústicos e voz ao mesmo tempo —, e o Pedro, que era ao mesmo tempo produtor e intérprete, não podia estar a gravar e a tocar ao mesmo tempo. Daí o amigo. Durante três noites, numa catacumba da Igreja, de auscultadores e ouvidos apurados, fui ajudando no parto dos Dias da Madre Deus. O mistério e a tensão estão lá, na gravação. O que não está é a intensidade do momento e a comoção que se seguiu; isso está só comigo. Havia takes perfeitos de afinação e ritmo, onde, metediçamente, apareciam ruídos parasitas: o longínquo som de uns pneus a rolar no negro empedrado da rua; ou o distante, mas agudíssimo, chiar do metal das rodas contra o carril, um eléctrico que passava na noite, fantasma; ou ruídos ainda mais irreconhecíveis, ruídos que queriam aparecer vindos não se sabe de que universo. Essas gravações só eu ouvi. Eram de uma enorme beleza. Era como se o mundo das coisas quisesse fazer parte e tentasse entrar, sem convite, no mundo das ideias belas. A tensão e a beleza do momento era tanta que de madrugada, quando aquilo acabou e eu voltei a casa para me deitar, chorei de comoção: síndrome de Stendhal, talvez, nascido daquela música, naquelas noites, naquela Igreja. E eu vivi aquilo só porque era um amigo com ouvido. Literalmente.

E depois há aquela história, já aqui a contei — “Prescreva-se o Mar” —, de cinco amigos e uma tempestade, a bordo de um veleiro no Mediterrâneo. Sobre o que não discorri, então, foi sobre a felicidade da sobrevivência, nem sobre o nó que ata os que passaram juntos pelo negro da tempestade e acordaram, exaustos, na manhã radiosa que se lhe seguiu. Qual lais de guia, qual… O nó de que falo é dos que não desata.

Um dia os meus amigos vão morrer e eu nunca lhes disse o quanto gosto deles, nem como foram o melhor que me aconteceu na vida. E sei que nunca lhes vou dizer pessoalmente; aos homens, claro. Também tenho amigas, mas com essas não há dificuldade em dizer como foram e são importantes na minha vida. Ainda há dias almocei com duas e disse-lhes. Disse-lhes como um homem diz coisas destas a uma mulher: de olhos caídos e cara à banda, dócil e meigo como um gato ronronante. Com as amigas é fácil. Uma pessoa diz simplesmente que gosta muito delas, manifesta a imensa saudade que sente, e faz ar de quem quer colo. Mas isso não se pode fazer com os meus amigos. Seria uma paneleirice, como se dizia em português antigo. E por isso a paneleirice vai assim, por escrito; porque quando os encontro, o que é cada vez mais raro, só sou capaz de abraços rijos — que os meus amigos são dos abraços rijos, das gargalhadas alarves, do fumo e do conhaque.

Esta primavera tem morrido tanta gente boa e talentosa que eu me assustei e imaginei quantos amigos nunca devem ter dito nada aos que morreram. E depois têm de dizê-lo à pressa e ao corpo do morto. E o morto já não está cá para ouvir. E dizer o quê aos mortos? Estão mortos. Tributos e panteões são para consolo e comoção dos vivos, para que os que ficam expiem a morte e a insignificância perante o tempo e o mundo. Enaltecer os que foram serve-nos a consciência e lava-nos a alma da negligência do afecto. Mas nada faz ao morto. Para o morto o melhor era ter havido mais conhaque em vida, mais fumo, mais galhofa… mais amor. Os mortos estão mortos. Mantê-los vivos com exortações, fingindo que ouvem, é religião. De mim, quando morrer, os amigos que cá ficarem digam apenas: este já era… E vão beber conhaque.

Se calhar este texto é de mau gosto. Pensei-o lamecha e agora está a sair-me tétrico. Mas eu vivo com a presença da morte sem que isso me preocupe desmesuradamente, ou me afecte a disposição. Acontece que já a senti, já se insinuou em desfiladeiros que atravessei; e uma vez insinuada, chegada à nossa presença, a morte, como o amor, fica para sempre. É uma revelação. Como o amor, é coisa que não se explica. Até que um dia, quando aparece, dizemos: “Ah! Então é isto”.

Os meus amigos fizeram-me feliz muitas vezes. Se bem me lembro, quase toda a felicidade que vivi veio da amizade. Pelo menos toda a que me lembro; ou toda a que me quero lembrar, porque há outras felicidades que acabam infelizes. Com os amigos nada se segue à felicidade a não ser mais felicidade, ou a recordação dela, o que também é muito feliz. E é por isso que preciso que eles saibam o tanto que eu gosto eles. E o tanto que os admiro: pelo que fizeram e fazem, pelo exemplo que deram e dão, mas também pelo que me aturaram e pelo tempo que tão generosamente me deram. A verdade é que tive muita sorte em ter amigos especiais: talentosos, corajosos e, sobretudo, generosos. Generosos com as ideias, com o tempo, com o ouvido, com o dinheiro, com o afecto e com o talento.

Houve uma altura em que disse — provavelmente tinha bebido conhaque a mais — que já tinha todos os amigos que queria ter, que já não havia tempo nem paciência para mais. Estava enganado. Quando o disse tinha apenas uma mão cheia de verdadeiros amigos, agora tenho duas; e queria ter mais mãos. É muita sorte ter duas mãos cheias de amigos. É amigos com fartura. E por isso quero dizer-lhes, antes que eles morram, ou eu, que é verdade o que dizem os azulejos foleiros nas paredes das casas portuguesas; e os livrinhos de sabedoria de aeroporto; e os apresentadores de programas da manhã; e as músicas pimba. Não há nada melhor e mais bonito do que a amizade.

Aos meus amigos, com amor e conhaque.

Amigos

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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13 respostas a Antes que eles morram

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Mas que belo texto. Que inveja da neve, dos camionistas e do conhaque. Também embirrei com o Blade Runner quando apareceu – tenho provas! Agora, estou um bocadinho arrependido.

    • Pedro Bidarra diz:

      Conhaque não faltará, amigo. Do blade Runner também passei a gostar, com tempo. E sobretudo quando finalmente o vi

  2. EV diz:

    Bom texto, Pedro. Há lá coisa melhor do que amar bem quem se ama?

  3. Marta Elias diz:

    Que maravilha de texto! Penso tantas vezes nisso, TEMOS de dizer aos nossos amigos que são fundamentais. Aos amores dizemos muito e à família é mais fácil. Os amigos tendem a ficar para ali, como os nossos fígados ou coração – tão fundamentais e por vezes tão esquecidos. Adorei!

    • Pedro Bidarra diz:

      Ter, ter, não temos, até porque eles não exigem. Mas é bom dizer. Isso e conhaque (insisto).
      Obrigado Marta

  4. Belo texto, Pedro. Fiquei logo com vontade de rever os meus grandes amigos, que cabem numa mão e ainda sobram dedos à espera, sempre à espera – a vigília continuará, porque os meus grandes amigos já o eram aos 18 anos (para mim, a amizade profunda precisa de rituais de passagem que rimem com a intensidade própria às descobertas da adolescência, aquela sensação de que vamos viver ou morrer juntos; não é fácil repeti-la na idade adulta). Quanto ao “Blade Runner”, vi-o na 1ª vez que foi exibido em Portugal, no encerramento do Fantasporto de 1983. Foi coup de foudre, e há poucos filmes contemporâneos que resistem tão bem à passagem do Crítico Para Acabar Com os Críticos (o tempo). Revi-o mais de 20 vezes, e deste-me vontade de escrever sobre as mulheres do filme (Sean Young, Daryl Hannah e Joanna Cassidy), que se apagaram como as naves ao largo de Orion de que fala o Roy Batty no final.

    • Pedro Bidarra diz:

      Obrigado, Pedro.
      E depois há rituais de outras passagens. É preciso é não deixar de passar. Coisa de desfiladeiros, lé está.
      O Blade Runner, não é mau. Cheguei à conclusão quando o vi anos mais tarde

  5. nanovp diz:

    Talvez seja o tempo Pedro, que avança sempre no mesmo sentido e nos faz querer olhar de soslaio para trás…E é o Conhaque claro, e todas as outras substâncias que nos fazem acreditar que podemos mandar o Tempo para o caralho…

  6. Victor Ferreira diz:

    É insuportável pensar que há pessoas que escrevem assim e nós não. Ó Pedro, assim não vale!
    Um brinde com conhaque…!

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