bashô em abril

Não há arroz

mas tenho na malga

Uma flor

cravo-25-abril-53d5Sábado de “Está Escrito” em sábado de 25 de Abril.

Tanto está escrito sobre cravos e Abril. Também eu me fui escrevendo sobre essas linhas. Esse croché de palavras fez renda no meu imaginário; o 25 de Abril andou comigo na escola, numa turma dos mais velhos. Crescemos juntos. Influenciou-me. Sempre gostei de saber mais sobre o que tinha feito e conseguido. Quem eram os seus amigos e inimigos. Por momentos julguei que a Clandestinidade era uma terra ou país. Muitas pessoas tinham andado por lá. Tinham memórias de lá. Lá longe, na Clandestinidade.

Acho que agora emigrou. Com os da turma dos mais velhos, com os da minha turma e com os que andavam na creche. Há muito que nasceram espinhos nos cravos, mas o 25 deixou marcas, fez mudanças. E sim, reforçou o sentido de liberdade e que a mudança é precisa quando nos sentimos oprimidos. A liberdade está dentro de cada um, é preciso encontrar coragem para ser.

Neste “Está Escrito” de Abril lembro Bashô, e a sua liberdade, poeta Japonês do século XVII.  Quebrou a tradição familiar, escolhendo ser poeta vagabundo, a samurai como o pai. Começa a interessar-se por poesia, encontrando-a nos Haikus, poemas breves de três versos.

Os Haikus são quase estados de alma pintados de primavera, de verão, de outono e de inverno. São rituais em poesia, suspiros que suspendem ais.

Uma velha sem dentes

que rejuvenesce –

cerejeira em flôr

.

Calou-se o sino

o que chega a mim agora é o eco

das flores

 

É preciso despirmo-nos para desfrutar destas brisas. Destes raios de sol. Ter liberdade para celebrar pequenos momentos de vida.

 

Flores de cerejeira no céu escuro

E entre elas a melancolia

Quase a florir

.

Primavera:

neblina matinal sobre

uma montanha sem nome

.

Abrindo de par em par

as portas do palácio:

A Primavera

Esta é a Primavera de Matsuo Bashô, um jovem que influenciado pela perda do seu grande amigo, decidiu viajar por todo o Japão fazendo diários de viagem, com as imagens que via.

Acorda acorda

Serás a minha companheira

borboleta que dormes

 

Lembrar Abril não é só falar do estado do país e de comparações com pó.

É preciso reparar que para conseguir liberdade, igualdade, fraternidade é sempre preciso arrancar preconceitos pregados com pregos. A fundo.

Ter coragem para fazer o nosso caminho. Escolher a nossa verdade.

 

Não esqueças nunca

o gosto solitário

do Orvalho

cerejeiras

In O gosto solitário do Orvalho de Matsuo Bashô. Assírio e Alvim

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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3 respostas a bashô em abril

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A Clandestinidade ser um país distante é muito bom.

  2. nanovp diz:

    “não esqueças nunca…” já é suficiente…

  3. Ana Doria Borges diz:

    “Lembrar Abril não é só falar do estado do país e de comparações com pó.
    É preciso reparar que para conseguir liberdade, igualdade, fraternidade é sempre preciso arrancar preconceitos pregados com pregos. A fundo.
    Ter coragem para fazer o nosso caminho. Escolher a nossa verdade.”

    UAUUU

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