Descascando a Cebola

“Günter Grass” – Terry Collett

“Günter Grass” – Terry Collett

“O Prémio Nobel da Literatura Günter Grass morreu esta manhã aos 87 anos numa clínica de Lübeck.”

Günter Grass, Danzig, 16 de outubro de 1927, foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1999, sucedendo a José Saramago. Os leitores ficaram chocados quando no livro de caráter autobiográfico “Descascando a Cebola” revelou que na adolescência foi membro das Waffen-SS (tropa de elite do exército do Reich) – “No instante em que invoco o garoto de treze anos que eu era na época, em que o tomo como incumbência, e me sinto tentado a julga-lo, ele escapa-me. Ele não quer ser avaliado ou julgado. Foge para o colo da mãe e diz: ‘Eu era apenas um garoto, apenas um garoto’.”

Günter Grass não tinha uma escrita fácil; todavia, ao lê-lo, reajo como estando frente a uma realidade quase pictórica pertença de um realismo trágico. Livro que mais me impressionou: “O Linguado”.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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2 respostas a Descascando a Cebola

  1. nanovp diz:

    Pois nunca li, tive o “O Tambor” varias vezes na mesa da cabeceira….

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Como o entendo! Para mim, que me estreava na leitura de Gün­ter Grass, foi difícil acabá-lo.

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