Dias e Dias

Há Dias assim, as nuvens da manhã lançam lágrimas aos olhos, e mais tarde aqueces o corpo na varanda. As melodias soam longe, como se de outro mundo fossem, e são, maravilhosamente abertas de um azul profundo como o mar mais solto.

Há dias que o teu amor é só memória, é só tempo, sem ser agora, mas dias em que tudo se esconde sobre a sombra da luz da tarde, o ar que cheira a maçãs verdes, a água parada e o tojo queimado.

Há dias assim, mas não são todos, entre os troncos lisos dos choupos, o mar lá atrás sorrindo em ondas brancas de barba, as revoluções esquecidas, desinteressadamente.

Há dias que não existem porque são cópias de outros passados, os mesmos gestos, o mesmo tocar, o amor repetido como se fosse cassete de música – põe lá outra vez.

Há dias assim que só existem uma vez e nunca mais. Dias de um calor sufocante sobre a cidade silenciosa e coberta de uma luz vertical, dourada, branca, o mediterrâneo perdido na poeira levantada.

Há dias que antecipam outros dias, e dias que substituem outros dias, mais velhos, experientes do olhar do tempo, solitários e superiores por terem já sido.

Há dias que “se me contares toda a tua dor eu nunca mais irei sorrir”.*

*roubado a  Phantasmagoria in Two, de Tim Buckley.
If a fiddler played you a song, my love
And if I gave you a wheel
Would you spin for my heart and loneliness
Would you spin for my love 

If I gave up all of my pride for you
And only loved you for now
Would you hide my fears and never say
“Tomorrow I must go” 

Everywhere there’s rain my love
Everywhere there’s fear 

If you tell me a lie I’ll cry for you
Tell me of sin and I’ll laugh
If you tell me of all the pain you’ve had
I’ll never smile again 

Everywhere there’s rain my love
Everywhere there’s fear 

I can plainly see that our parts have changed
Our sands are shifting around
Need I beg to you for one more day
To find our lonely love 

Everywhere there’s rain my love
Everywhere there’s fear

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a Dias e Dias

  1. adelia riès diz:

    Gostei tanto

  2. EV diz:

    É muito bem caçado aquele “põe lá outra vez” em cassete, Bernardo.

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