Então, é isto o amor?

Tazza Farnese

Estava aqui a fazer conjecturas sobre as nossas pequeninas mas terríveis hipocrisias. Na verdade, sobre uma delas. A teoria da independência e a prática da dependência. Não tem muito o que saber.

A família, na nossa cultura, tanto é a rede que protege quanto a malha que aperta, e isso não é bom nem mau, apenas nos fecha a um sentimento de comunidade e nos vincula à consanguinidade e às relações de proximidade social. Tem consequências, claro, o mérito vale pouco ao lado do sangue…

Porém a questão em que me entretinha nem era bem essa. Não directamente. Pensava em termos afectivos. Como é que nós, que vivemos com os nossos pais, fazemos um brevíssimo interregno dessa morada para logo construirmos uma família, ou seja, como é que nós, vivendo em permanente relação familiar, e próxima, temos a lata de falar dessa independência que não vivemos como um valor – não para nós, claro, que não somos cá malucos -, mas para os que estão de facto sós ou, imaturos!,  não querem estar pois foram, mais do que educados, alimentados do pensamento aos sentimentos e comportamento para ser família?

Como tantos portugueses cresci numa casa inter-geracional que é o mesmo que dizer, na casa dos meus avós, perto da casa dos meus bisavós e de todos os meus tios, os irmãos do meu avô. Durante aquela fracção de segundo em que vivi com o meu pai e a minha mãe, quando íamos para o Porto, era tudo igual, apenas com outros cenários e outros actores: todos os irmãos do meu pai, excepto ele, viviam na mesma cidade, portanto, perto uns dos outros e dos meus avós paternos.

A solidão cai-nos como um mau vestido barato e mal cortado.

Eu tenho sorte. Talvez porque casei cedo e me divorciei cedo, pude, depois, observar. Em câmara lenta. A observação muda-nos: cria um intervalo entre nós e a coisa observada. Aprende-se – não que isso sirva para muito, mas muda-nos, quero dizer, faz-nos completamente outros permanecendo os mesmos. E não voltei a partilhar uma casa desde essa juventude, ainda que tenha dito sim duas vezes, para dizer não antes de marcar a data dos dois novos casamentos que consegui evitar só porque a observação nos muda e quando observamos, vemos, e vemo-nos. Temos escolha. É uma liberdade. Perceber isto não é amor, esta não é a pessoa, esta não é a relação nem o futuro a despeito de quaisquer imagens erróneas de perfeito casal-família em cujo reflexo nos vejamos devolvidos, é uma grandíssima liberdade de ser.

Sei que não tenho a cultura nem o coração para ser só, ainda que goste da minha atípica independência. Há-de estar um muito específico amor à minha espera porque eu não quero outro, nem tão pouco a minha cabeça já se assusta e diz um sim que é não, Deus me livre. Mal comparado, há-de ser como a história do perfumador que só pôde acontecer porque cresci na velha casa dos meus avós onde coisas velhas abundavam, nada como os apartamentos da Base Alfa onde as minhas colegas viviam em actualizado convívio de elevadores partilhados e outros prodígios da intimidade com estranhos.

Em pequena, sempre gostei de quinquilharias rebrilhantes ou, na linguagem familiar, sempre tive gosto de sevilhana. Ora, um dia, entra-me pelos olhos adentro uma garrafa que estava no móvel de estimação da minha avó. A coisa era positivamente barroca, logo, era linda.
– Posso ter aquela garrafinha pequenina que está ali no seu armário?
– Qual garrafa nem meia garrafa, é um perfumador!
De facto, a garrafinha pequenina de porcelana branca, decorada à maneira da Tazza Farnese do Carracci, grinalda de frutos, maçãs, uvas, pêras gordas e Baco ao alto, as armas ao centro, e grinalda de rosas de esmalte sobre a monture do gargalo, era um idoso perfumador.
– Posso tê-lo para minha garrafinha?

Havia isto: a apropriação de leques, anéis, quinquilharias ou não, pérolas verdadeiras ou falsas, tanto me fazia, mas as coisas daquele armário não, nem abrir o armário sequer, ó criaturas intocadas, o minucioso açucareiro de cristal azul tão profundo, suspenso numa gradinha assente em quatro lindas patinhas cheias de ramicoques e que pesava, nem sei, muito, ideal para os meus chás, só lhe peguei uma vez durante a limpeza e mesmo assim, ai os meus ricos tímpanos, nem pensar, ouviu?!

Os adultos têm dias de grande mistério. A minha avó era não. Era não em regra. A minha avó era a própria regra. Mas levantou-se, rodou a chave na vitrine, e disse:
– Tome lá a sua garrafa. Eu, no seu lugar, não a partia.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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13 respostas a Então, é isto o amor?

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A sua frase: “Sei que não tenho a cul­tura nem o cora­ção para ser só, ainda que goste da minha atí­pica inde­pen­dên­cia.” vale uma semana de blog.Duas, mesmo. Muitíssimo bom.

  2. adelia riès diz:

    Gosto muito das suas reflexoes

  3. nanovp diz:

    O amor pode bem ser isso Eugénia: não partir a garrafinha!

  4. Mário diz:

    A menina EV mete as fichas todas no amor. Entre o preto e o vermelho escolhe o vermelho. Pode ser que saia. Espero que sim. Conheço alguns (e não são poucos) que, ao contrário, depois de 50 anos de esquisitices, de manias, solteirões assumidos, arranjam (ou melhor, são arranjados) companhia e depois, há falta de melhor palavra, ficam mansos…mas daquela mansidão pegajosa, tipo choninhas…é como diz o outro, eles falam falam mas quando lhes toca a eles não fazem nada…ou melhor, fazem tudo por/pela companhia, muda-se de gostos, de lugares, de amigos…um cestinho de ovos à menina EV pela coerência.

    • EV diz:

      Mário, não percebo nada de homens de cinquenta anos, e cada caso será um caso, mas posso jurar sem mentir que um homem que tenha chegado a tal idade sem casar… red alert!

      Mas agora que penso no que diz vou fazer um anúncio agustiniano:
      Rapaz risonho entre os 46-48 anos – os homens são muito crescidos e os meninos muito bebés;
      Um tantinho workaholic;
      Divorciado uma vez – não quero cá duas nem três;
      Que goste de treinar e de ar livre – opcional faça paddle e tenha paciência para me ensinar;
      Tenha o maluquedo da leitura, da música, e goste de passear e andar a pé.
      Viva em Lisboa – preferencial mas não obrigatório.
      E mais unas cositas.

      Obrigada pelos ovos.

  5. Mário diz:

    Pois, deveria ser assim, um tipo aos 50 anos sem casar ou é um bon vivant ou, no mínimo, deveria ter uma história traumatizante qualquer, tipo ser abandonado no altar ou assim…quanto ao seu classificado tem que alargar um bocadinho o escalão etário…e filhos? como é que é em relação aos filhos dele? provavelmente adolescentes, uma complicação. Quanto ao facto de ser preferencialmente de Lisboa dá sempre aquele arzinho snob e quanto aos gostos terem de ser iguais aos seus (no fundo são os seus gostos que lá estão, não são?), lá está, um dos meus choninhas servia 🙂

    PS: tenho umas teorias de nada sobre compatibilidades, um dia, quando lhe apetecer dissertar sobre o assunto eu opino

    • EV diz:

      Já me fez rir, seu implicativo! 😀

      Claro que são os meus/dele-abstracto gostos: não são os opostos que se atraem e são felizes juntos, são os complementares. Quanto a crianças ou adolescentes, está tudo bem, se eu tivesse filhos também gostaria que esse amor fundamental fosse querido e respeitado.

  6. Esqueceu – se de um pormenor fundamental no seu classificado.
    – Sem piercings ou tatuagens sff.

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