Estou danado com a Embaixada de França

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Descartes teria sido o inventor da “Noite de Filosofia” se a sueca rainha Cristina não fosse mais dada a Platão do que ao seu cogito – seu dele, entenda-se.

Estou danado. Estou que não posso com a Embaixada de França em Lisboa. Como é que foi possível terem ido comemorar a passagem do 24 para o 25 de Abril, em Nova Iorque, com uma noite de filosofia, que foi das 7 da noite de 24 até às 7, aurora do 25 de Abril?

E Lisboa, senhor Embaixador?

Foi uma noite homérica. O evento, chamemos assim a este happening louco de tão sério, ocupou os Serviços Culturais da Embaixada, mas também o Instituto Ucraniano da América, que faz mais ou menos esquina. Já estão a pensar que haveria meia-dúzia de lunáticos, uns tipos com doutoramentos em “objectividade modal” que lavam pratos no Soho? Desenganem-se.

Não sei se a filosofia vai voltar a estar na moda, mas a esta “Noite de Filosofia” foram mais de cinco mil pessoas. Havia filas quilométricas, espalhadas por vários quarteirões da 5ª Avenida e há quem tenha esperado três horas para conseguir entrar.

Houve para aí uma centena de comunicações. De “Diz ‘Olá’ e Diz ‘Obrigado’: O que Linguagem faz aos Humanos” até a “A Moral é Necessária à Felicidade”, as leituras passaram pela lógica, metafísica, ética e estética. Se não se esqueceu a teoria política (“Haverá mesmo Estados legítimos?”) houve quem ousasse interrogar a possível consciência dos extra-terrestres (“A Mente dos Aliens”) e a razão por que não falam connosco, quando nós nos pelamos por querer falar com eles.

Sim, houve performances, improvisos musicais, poetas e equilibristas e, numa sala oval, leu-se durante cinco horas ininterruptas a totalidade de “A Filosofia de Alcova”, do tão penetrante e francamente penetrável Marquis de Sade.

Eram 6 da manhã e, na sala de baile do 2º piso, ainda Alice Le Goff encostava à parede duas centenas de animados resistentes, com uma questão a que não me atrevo a responder: “Será a Honra Obsoleta nas Sociedades Modernas?” A máquina de café do Instituto Ucraniano, diz o New York Times, já tinha pifado, o gin e a tequila fora um ar que lhes dera no Chandelier Room. Toque de elegância tricolor, acabara de chegar o último reforço de croissants ao lobby dos Serviços Culturais.

Não quero irritar ninguém, mas aviso que os franceses já tinham feito isto em Paris, Londres e Berlim. Para Portugal é mais filmes e a festinha do cinema, que não há cá ninguém que queira discutir, como em Nova Iorque se discutiu, “Tem a Vida Intelectual de ser Chata?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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9 respostas a Estou danado com a Embaixada de França

  1. EV diz:

    Claro que não tem de ser chata! Não é o seu texto uma prova disso?

  2. Cecília Alves (Cila Alves) diz:

    Os franceses, tarde e a más horas, descobriram que deixaram cair a língua e a cultura que fez de Paris a Cidade Luz. Agora num esforço desesperado fazem qualquer coisa para tirar a cabeça da areia e nem sempre com boas opções… Mas também é verdade que aqui pela terra não somos muitos chegados à cultura francesa. Quantos filmes franceses passam nas nossas televisões? Música francesa? Quem conhece os novos cantores? Os novos escritores? Livros em francês? O Instituto Franco Português, que há 10-15 anos era um local de encontro de tanta gente, hoje é o quê? Os cursos de francês nas faculdades estão às moscas! O Liceu francês… basta ir à saída para ver que a grande maioria das crianças são francesas residentes em Portugal. Os nossos meninos andam a aprender inglês, espanhol e alemão! “C’est la faute à qui??” A eles próprios que deixaram morrer a cultura deles no estrangeiro!
    Este comentário vai longo mas ainda vou contar uma pequena história:
    Num quiosque das Amoreiras estava um senhor, francês, a pedir o jornal em… inglês. Perguntei-lhe, em francês (que, como costumo dizer é a minha língua paterna) porque não pedia o jornal em francês e o diálogo foi mais ou menos este:
    – Se pedir em francês ela não percebe.
    – E de quem é a culpa? Se abdica da sua língua porque é que ela tem que a ir aprender?
    o homem ficou a olhar para mim… e depois disse-me: “vous avez raison, Madame”!
    Face ao ar consternado e educado do cavalheiro, resolvi suavizar e disse-lhe: “Sabe, é que eu fui tradutora de francês durante 30 anos e deixei de ter trabalho porque os franceses abdicaram da sua língua e hoje as empresas para quem eu trabalhava, fazem tudo… em inglês”.
    Ele repetiu: “Vous avez raison, Madame”.
    – Je vous souhaite une bonne journée, Monsieur… en français! (o meu sorriso 33 e fui…)!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Cila, nem sabia que ainda havia cá franceses. Pensei que já tinham bazado todos… Um beijinho

  3. Pedro Bidarra diz:

    Muito gostaria eu de ter lá estado.

  4. adelia riès diz:

    Tem razao! Mil vezes razao!!

  5. nanovp diz:

    Filosofia fora de casa…sempre recomendável…

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