Ignorância e Sabedoria

 

Adventures
O melhor sítio para se aprender sobre escrita de argumento (ou de guião, numa linguagem mais televisiva e contemporânea) é a sala de cinema. Há poucos livros que ajudem de facto ao domínio de uma técnica criativa por vezes mais parecida com a arquitectura ou a matemática do que com a literatura. A prosa de génio é uma boa ajuda: a “Odisseia” de Homero; “Dom Quixote”; Shakespeare; Stendhal; algum Dickens. Guias de “scriptwriting” há-os aos pontapés, e são quase todos imprestáveis – dos canónicos Linda Seger e Syd Field à desconstrução mítica de Joseph Campbell ou às fórmulas complexas mas repetitivas de Robert McKee (o seu “Story” é a escolha habitual dos iniciados, e que erro trágico é começar por este ocultista dos jargões da “progressão narrativa”…)

“Adventures in the Screen Trade: A Personal View of Hollywood and Screenwriting”, de William Goldman (reedição de 1989, Grand Central Publishing), entre a autobiografia, o anedotário da indústria e o guia de escrita, é dos raríssimos títulos capazes de mudar hábitos e mentalidades artísticas. Devorei-o em 48 horas no Verão encorpado de 1997, entre a Flórida e o Connecticut, 600 páginas de brisa mental com a frescura de um daiquiri. Foi escrito por William Goldman, um dos melhores argumentistas da história moderna de Hollywood, digno sucessor de Ben Hecht, Philip Yordan, Casey Robinson, Charles Schnee.

Goldman é um cavalheiro de 1,85m e falas suaves, de instinto natural para as regras e subtilezas da narrativa, lúcido portador do paradoxo da “escrita para cinema”: o argumento é o apogeu de 7000 anos de contadores de histórias, dos mitos cosmogónicos em redor da fogueira paleolítica às micro-metragens de fusão digital; porém, o argumentista será sempre o elo mais fraco de uma longa cadeia de produção criativa, uma espécie de eunuco no meio do bacanal.

Goldman, de formação clássica mas inteligência suficiente para estimular a margem de improviso, heterodoxia, rasgo poético e subtexto que autores como Suso Cecchi D’Amico e Jean-Claude Carrière incensam, venceu dois Óscares, por “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969), pós-western entre o picaresco e o crepuscular, e “Os Homens do Presidente” (1976), lição quase perfeita de como transformar uma investigação jornalística exaustiva e fastidiosa – o caso “Watergate” -, construída sobre um monumental castelo de telefonemas, faxes e blocos de apontamentos, erigido ao longo de cerca de dois anos, num thriller tenso e apaixonante com cheiro a fim de civilização.

No texto, o autor percorre a engenharia dramatúrgica de obras menos conhecidas mas de interesse obrigatório, como “Magic” (onde Anthony Hopkins oferece uma das suas interpretações de antológica surdina), “Misery” (ou “pense 200 vezes antes de se tornar escritor”), o divertidíssimo “The Hot Rock” (a partir do hiper-pulp Donald Westlake), um distópico – e delicioso – “The Stepford Wives” ou a quase desconhecida adaptação da sua própria novela, “The Ghost and the Darkness”, uma das melhores fitas de aventuras dos anos 90.

Revelam-se memórias suculentas de Tinseltown, onde a vaidade das vedetas (masculinas como femininas) ou a parvoíce dos executivos das “majors” não escapa. E a longa secção onde se disseca o argumento integral de “Butch Cassidy and the Sundance Kid” deveria ser obrigatória em qualquer curso superior de Letras (ou inferior, há tantos). Mas o segundo, e mais importante, paradoxo que Goldman nos reserva pode traduzir-se nas duas frases mais célebres do livro:

– Quanto às hipóteses de um filme ter ou não sucesso, “Ninguém sabe nada”.

– “Um argumento é estrutura”.

Enquanto sublinha, do topo do seu quarto de século de experiências bem sucedidas, que não existem fórmulas para produzir filmes de êxito, Goldman reafirma que há um conjunto de regras indispensáveis à criação de um argumento de nível artístico e narrativo superior. Sobrará, depois, o talento para se ser capaz de contornar essas regras, reinventando-as. Mas não se constroem casas sem uma planta (a não ser que se goste de viver ao relento; há quem goste).

Nesta ambivalência, que Cinemas como o português nunca foram – nunca serão? – capazes de resolver, mantém-se o fascínio de um livro capaz, 33 anos após a primeira edição, de despertar vocações.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a Ignorância e Sabedoria

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Vê lá é se apareces para uma orgia.

  2. Marca a data que lá estarei, doutor.

  3. nanovp diz:

    Parece contraditório, mas a sabedoria empírica é essencial para permitir o vôo livre do talento. Apeteçe ler mesmo para ignorantes da arte Pedro.

  4. Vou emprestar-te, Bernardo. Pode ser que te divirtas.

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