O terror da cultura através de palavras caras*

Decapitações de estrelas de Holliwood

Noe Sendas: Decapitações de estrelas de Hollywood (2011)

Há, nas pessoas que se orgulham da sua cultura, um terror recorrente, que é um autêntico pesadelo: o lapso. Uma vez, há cerca de 15 anos, numa reunião do Expresso onde estava na minha qualidade, digamos assim, de tipo mais ou menos culto, para decidir que tipo de obras se poderiam divulgar com o jornal, confundi o nome Lafayette com La Fontaine. Alguns dos então presentes, a começar pelo presidente do Grupo, Francisco Balsemão, ainda hoje me chamam Marquis (de Lafayette), o homem que na fragata Hermione levou e depois comandou os soldados franceses que se bateriam contra os ingleses pela independência dos Estados Unidos.

Há, nos não cultos, ou nos menos cultos, um terror, também como um pesadelo: dizer algo que possa revelar a sua falta de cultura.

Penso que é por isso que na Comunicação Social, nas secções de cultura, se usam amiúde palavras caras. Para que ninguém entenda e a maioria pense que o problema não é de quem comunica, do emissor, mas do recetor.

Já Montaigne, no séc. XVI, dizia que os falsos cultos se refugiam atrás de palavras caras para esconderem a sua ignorância. François de Rabelais, no séc. XV, por gostar de inventar palavras, introduziu o termo Sorbonnagre como sinónimo de alguém que estudara ou ensinava na Sorbonne. Onagre, além de outras coisas, é, como se sabe, uma espécie de burro e, da junção das duas palavras, resulta esta coisa admirável – um burro com insígnias académicas, alguém que não pode falhar, e que por isso não pode ser demasiado concreto.

É sabido que as profissões têm estes patoás, mas não é ao que me refiro. Falo – fique claro – do ponto de vista da Comunicação Social e do jornalismo, incluindo o cultural.

A diretora da RR, Graça Franco, dizia-me, há dias, que tivera uma discussão interessante: seriam os jornalistas de cultura obrigatoriamente cultos? É interessante porque muitos deles se julgam assim e, muitas vezes, ficam surpreendidos por jornalistas que andam na guerra, ou escrevem sobre política, saberem ler música (o que na generalidade eles não sabem) ou terem lido clássicos gregos e latinos (o que na generalidade não leram). Mas se a pergunta for: um jornalista de política dava um bom político? Bem temos vários casos: Vasco Pulido Valente, Maria Elisa, Manuela Moura Guedes, Vicente Jorge Silva… tirem as vossas conclusões.

Voltando ao cerne do tema, há ainda, que fazer uma viagem sobre o que é, na verdade a cultura – o que foi e o que é – e a sua ligação ao gosto. Porque este terror cultural tem duas faces ­e não só o da falha, do lapso e da falta. É também o da revelação da não-compreensão e, pior, da total ignorância.

Aquela pessoa educada que não compreende o objeto cultural para que olha – uma tela – ou que ouve – uma obra musical – tem uma falha cultural? Ou a falha é de quem não se faz entender junto de pessoas educadas?

Há ou não uma espécie de lóbi cultural que nos atormenta, ou aterroriza?

Há ou não um código, uma chave que apenas permite a entrada de alguns no mundo da cultura, no sentido em que raros admitem que um engenheiro possa ser muito culto, ou que um economista saiba imenso de música… embora os psicanalistas possam saber disso tudo, assim como os licenciados em Filosofia, História ou em Direito…

Sonhar uma cultura sem este terror é o quê? Irmanarmo-nos num cânone? Regressar ao culto do sublime? Não ter cânone e tudo se equivaler, sublime ou não? São perguntas e respostas a que vou tentar responder.

Imaginem que eu dirijo a alguém conhecido, mas pouco versado em etimologia grega, a seguinte frase:

– É Vexa um dos maiores apedeutas que me foi dado conhecer.

Aposto que a maioria agradecerá o cumprimento, sem desconfiar que o estou a chamar ignorante, ou mesmo idiota… Esta é a vantagem das palavras caras. Basta conhecer algumas para passarmos por mais cultos do que somos, insultar sem o interlocutor perceber e, sobretudo, esconder a nossa própria apedêutica, ou seja a nossa ignorância.

A ignorância é atrevida, diz-se. Porque a forma de escondê-la é mostrá-la por outros meios. O que agradece ser apedeuta finge saber o que significa a palavra. O que a diz dá a entender que a palavra é usada amiúde. É um jogo de enganos.

O terror da falta de cultura é hoje uma espécie maldição que se abateu sobre a sociedade. Desde logo, porque o consenso sobre o que é e não cultura, a sua confusão com artes, e a ideia errada, que veio do racionalismo positivista, de que através da educação e cultura se melhora os instintos básicos do indivíduo a tornaram numa espécie de divindade – e se há coisas de que temos terror é das divindades, dos seres intangíveis, inalcançáveis.

Na verdade, o termo cultura em latim era mais utilizado (senão exclusivamente) para o que hoje chamamos agricultura. A cultura da batata ou do milho ou do trigo ainda são bens económicos importantes na sociedade. Mas se cultivar centeio significa cuidar dele e fazê-lo crescer até se tornar num valor, a cultura do espírito não tem outro objetivo, exceto no sentido em que o valor de que falamos não é económico, mas espiritual.

Deveria dizer, provavelmente, que esse valor era espiritual. Já não é… Vejam estes exemplos: uma catedral medieval podia levar 100 anos a ser construída. Isto significa que quem a desenhava e a concebia nunca a veria pronta (a não ser se estivesse sentado, como esperava, no paraíso, com vista para a terra). Nem mesmo a segunda geração de construtores a poderia ver finalizada. Hoje em dia isso é impossível de conceber. Ninguém trabalha para AMDG (Ad Majorem Dei Gloriae), mas sim para si e para os seus pares. A cultura e a criação cultural foram assim evoluindo de uma oferenda de uma sociedade aos deuses, para uma oferenda do artista à sociedade e, mais recentemente, por uma transação comercial do artista para um galerista (ou editor) que a fará chegar por um determinado preço a um possuidor final, seja particular, seja um museu, seja o que for.

Essa transação não tem uma finalidade precisa. Da pintura, tão discutida, diz-se que é arte a que está num museu; da música, do teatro ou da ópera, a que é apresentada ao público. Dos livros e cinema aqueles que têm sucesso – seja sucesso comercial, seja sucesso na crítica.

Os padrões tendencialmente objetivos desapareceram com a desconstrução dos cânones. As sete maravilhas do mundo antigo, cujo conhecimento conferiam o nível de viajante e de culto aos que as tinham visto, são hoje uma quimera. Todos os dias chegam ao mercado novos valores – alguns seguros, outros nem tanto. E a função dos críticos medíocres, que serão a maioria (os que não são medíocres afastam-se desta mediania e dizem o que pensam), é não desiludir o artista, nem o intermediário, mas sobretudo não dizer algo que o confronte com outros críticos. O pior que pode acontecer a um desses críticos é achar que determinada obra é má, para depois dois entendedores, verdadeiros ou fabricados, entenderem a mesma obra como genial.

No séc. XIX e nos primórdios do séc. XX este tipo de contradição poderia dar uma polémica interessante – e até umas bengaladas valentes, senão um duelo. Mas agora nada disso se passa: hoje há um efeito de manada. Fulano, bom; sicrano, mais ou menos; beltrano horrível.

Quando se demonstra que música de Rui Veloso ou Jorge Palma tem a mesma estrutura do que a de Quim Barreiros ou Emanuel, as pessoas negam exaltadas. Até perceberem que a o material utilizado por Niemeyer não tem de ser diferente daquele que usa Tomás Taveira.

Sendo assim, convencionou-se que algum desse material e formas tinha adjetivos próprios, no geral difíceis – não digo tanto como apedeuta, mas pelo menos um onírico e um indizível têm de entrar – ao passo que as formas e materiais ‘pimba’ têm outros adjetivos. O valor intrínseco deixou de existir e apenas subsiste o valor da crítica dos pares. Ou seja a arte pela arte nunca foi algo tão distante do que é hoje. Agora deveríamos dizer, em vez de “ A arte é a recompensa da arte”, outro aforismo “A recompensa da arte é o que os críticos, galeristas e agentes artísticos fazem para a transformar em arte”.

Na inauguração de Serralves havia, como peça de arte, um automóvel muito amachucado nos jardins do museu. Agustina Bessa-Luís, com o estatuto e a idade de quem lhe permita estas brincadeiras, virou-se para o marido e disse-lhe: “Alberto, quando tivermos um acidente de automóvel, podemos ambos passar a ser artistas plásticos”.

Qualquer pessoa sem este estatuto, ao dizer isto, seria considerado um mero imbecil incapaz de reconhecer o que é óbvio em boa parte da arte contemporânea: que o rei vai nu!

noé-sendas-14

Noe Sendas: mais decapitações (2011)

É possível sonhar a cultura sem terror? Eis a vossa pergunta. E eis a minha primeira reposta: o terror da cultura é interno a cada indivíduo. Quem se movimenta em ambientes culturais tem o pavor de falhar. Mas há mais para dizer sobre o assunto. E no fundo o carro acidentado é um arquétipo dessa cultura.

Depois de aspirar ao belo, a cultura passou a aspirar ao choque, algo que Dietrich Schwanitz, autor do magnífico livro “Cultura” (embora o original alemão fosse Bildung o que não é exatamente cultura, mas sim educação), como Jacques Barzun, autor de “Da Alvorada à Decadência – 500 anos de cultura ocidental” (From Dawn to Decadency, no original) consideram um dos primeiros sintomas do declínio da civilização.

A cultura, os cultos, que se passaram a designar assim devido ao facto de a palavra Kultur em alemão ter abandonado a batata (agricultura em alemão é Landwirtschaft) para dizer apenas respeito ao cultivo do espírito, dos sentidos, da alma, os cultos dizia, acharam que a arte pela arte, pior do que a arte para agradar aos deuses, não fazia sentido. A arte deveria ter um papel social. Agradar ao novo povo eleito marxista, que era o proletariado, que aspirava ao paraíso do socialismo. O neorrealismo e o romantismo revolucionário tinham esse papel. E por isso grandes escritores, grandes artistas, que em determinadas alturas do séc. XX prefiram não se aproximar desses movimentos, foram ostracizados. A crítica passou a orientar-se em nome dos objetivos da arte e não da arte em si. Talvez por isso demorou mais a reconhecer Vargas Llosa do que Garcia Marquez; ou faça com que Érico Veríssimo ainda seja quase desconhecido face a Jorge Amado. De qualquer modo Sartre dá 10-0 a Raymond Aron, embora este último viesse a ter razão e Sartre tivesse previsões e teses desastradas, assim como o americano Isaiah Berlin só recentemente se tornou mais conhecido do que a chilena Marta Harnecker que fazia vulgatas marxistas.

socialismo-es-la-ciencia-del-ejemplo

Ilustração dos ensinamentos de Marta, que foi ainda grande amiga de Hugo Chávez, a quem dedicou uma obra de fôlego

 

A cultura passou a ser sonhada como uma transformação da sociedade e conhecê-la, ser culto, implicava essa quase-militância.

Mais tarde, quando o comunismo se esboroa, os seus filhos pós-modernos tomam conta da coisa. O pós-modernismo tem em comum com o comunismo a negação do passado por ser passado e a ideia de igualdade sem barreiras. Mas o pós-modernismo reforça a atitude relativista que destrói normas e cânones e a multiculturalista, onde todas as culturas se equivalem. Isto, embora possa parecer algo bom, aterroriza quem pretende estudar a nossa cultura. Começa por não reparar nas nossas singularidades positivas para destacar as nossas banalidades negativas. Estas últimas – como o esclavagismo, por exemplo -, eram quase sempre sobrelevadas em relação às nossas singularidades: acabar com a escravatura, ou com a pena de morte.

A nossa civilização, palavra que até à chegada de ‘Cultura’ a substituía, torna-se, deste modo, prisioneira de um discurso que haveria de ser igualitário e não ferir ninguém. É o tempo em que os coxos, manetas, zarolhos e tolos passam a deficientes. Claro que anos mais tarde a palavra deficiente torna-se, ela própria, tão negativa como as anteriores, já se sabe o que é a natureza humana.

O fundo, confesso que provavelmente bem-intencionado, seria o de aproximar todos de todos. Mas sobretudo o de aproximar normais de anormais (no sentido fora da norma). Um surdo passar a ser deficiente auditivo parece-me tão louvável como chamar cleptómano a um ladrão. Há uma igualitarização – ninguém numa aldeia era cleptómano, até porque a palavra não existia. Do mesmo modo que um coxo nas aldeias se manteve como coxo durante muito mais anos (a palavra manco também era utilizada).

Nas artes, esse esforço dividiu-se em dois: primeiro, ainda nos tempos do comunismo e das grandes ideologias, ensaiou-se uma espécie de arte ao serviço do povo, mais simples, para que ele o entendesse, mas carregada de mensagem política. Depois, perante o desespero que foi perceber que o povo – esse magano – não queria saber da arte para nada, entrou-se na segunda via: a arte conceptual. Não havendo um deus para satisfazer, parecendo aos artistas, sobretudo menores, que já estava tudo dito, feito, desenhado e criado, o experimentalismo reinou. Entre as pouquíssimas coisas interessantes que se fizeram, a maioria não tinha pés nem cabeça.

Excerto da partitura de 4’33” de John Cage – uma obra de silêncio absoluto é música?

E aqui entra o terror do não ser culto. É uma espécie de parábola das Novas Vestes do Rei. Dizer que o Rei vai nu não é tão simples. Na verdade, na conceção de arte contemporânea pode admitir-se que, salvo por razões humanitárias, as decapitações do ISIS são uma expressão artística. Já houve quem, embora de forma fotográfica, tivesse enveredado por esse caminho. Carlos França, crítico, escreve assim sobre a arte de Noé Sendas, um artista belga nascido em 1972: “Trata-se dum trabalho que além de questionar o sentido evocativo e o estatuto material da imagem, procura torná-la numa espécie de entidade anónima, num espaço metafórico do inconsciente sem referência autoral nem identidade particular, numa substância imaginária sucedânea de si mesma, sujeita a manipulações, cortes, decapitações e encobrimentos que visam restituir o corpo da imagem dando-lhe uma nova condição originária, que abarca o seu apagamento inicial e posterior recriação”.

Como veem o texto é de compreensão imediata e quem não percebeu bem o que ali se diz, pretende ter entendido perfeitamente e passa à frente. Noé Sendas, o artista plástico que vive e trabalha em Berlim, expôs na Galeria Presença, no Porto, e isso confere-lhe o estatuto necessário, e o título da exposição é preciso: The Eighteenth January Two Thousand and Fourteen. Devo dizer que, do que vi deste artista plástico (aqui ficam publicadas duas fotografias) achei interessante. Mas o que mais nele me interessa é esta ideia: aquilo é o quê? Salvo podermos achar interessante? E ser interessante é ser arte? Entretenimento e arte são equivalentes? O pequeno Samuel que cantou “O bacalhau quer alho” é um artista? (e não no sentido popular de artista – tipo és um grande artista!!!)

Passemos à música. Quando nos fere os ouvidos e os nervos, de que serve? É o quê? E o mesmo com a arquitetura quando é invivível, com a literatura incompreensível, com o que entenderem…

Eu não sei responder à pergunta que aqui se faz – é possível sonhar a cultura sem terror? – mas imagino que a resposta tenha de ser sim. A cultura, afinal, é uma forma de nos elevarmos, de chegarmos mais perto da transcendência, do belo, do equilibrado, do harmónico, do sublime, do sensitivo absoluto. Mas ao permitir-se que a cultura seja, quase toda ela, dominada por um conceito – que envolve gosto, dinheiro, amizades, lóbis e coisas estranhas – conceito esse que muitas vezes – a maior parte das vezes? – não entendemos, acabamos por nos virar para a cultura que está consagrada, canónica – a velha ópera de Mozart; o velho livro de Dostoievsky; o velho filme de John Ford; o velho quadro de Mondrián; a velha arquitetura de Le Corbusier e aceitar apenas o que já está aceite.

Tudo o resto, se não houver caução dos críticos dos galeristas, dos pares, dos museus, dos programadores culturais, não arriscamos. E os primeiros que o fazem é através de palavras ou suas equivalentes, tão caras que nem as entendemos. E aí sobrevém o terror: andei eu a estudar tanto tempo para isto?

Esse terror passou-me quando teria pouco mais de 20 anos ao ver um filme de Edgar Reitz na Faculdade de Letras de Lisboa. Numa pequena troca de impressões com colegas meus chegámos à conclusão que ninguém tinha percebido. Devíamos ser nós a ficar aterrorizados pela nossa ignorância ou Reitz a aterrorizar-se por não conseguir comunicar?

Acho que até hoje essa questão não está esclarecida.

*texto lido no VII Encontro da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, subordinado ao tema “Terror sem nome – Psicanálise e a Urgência de Sonhar”, sábado, 18 de abril

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

5 respostas a O terror da cultura através de palavras caras*

  1. EV diz:

    Bravo!

    Ps: mesmo agora acabo de trazer para casa o “velho Dom Quixote” – o que recomendou, o da própria da D. Quixote, traduzido por Miguel Serras Pereira – a ver se, na qualidade de triste, não o deixo só na sua triste figura.

  2. Henrique Monteiro diz:

    Merci, Eugènie. Acho que o Quixote vai lindamente

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Não sei se te felicite se te decapite, mas lá que este era um triste tema para um dos nossos jantares…

  4. riVta diz:

    Muito Bom

  5. Joaquim Jordão diz:

    Se o Henrique me dá licença, e se J. Rentes de Carvalho não toma a mal, vem a propósito o que este escreveu aqui há dias no seu blogue “Tempo Contado”, num texto intitulado “Inveja”.

    Ora veja:

    «Ignoro em que fontes alguns bebem a inspiração, em que suculentos tratados buscam ideias e vocabulário, ou que divindade lhes oferta tão soberba inteligência, certo é que digerida a melancolia da minha ignorância me toma uma irreprimível inveja.
    O jovem e talentoso colega, de quem é o período que segue, não se dará conta em que estado me deixou: metaforicamente estatelado, a cabeça a zunir, perguntando-me por que razão o Todo Poderoso a uns dá tanto e deixa outros à míngua.

    “A libertação da arte em relação à obrigação de representar, ou de apresentar cabalmente o seu significante, é fundamental para adentrar um espaço mental, que não deixa de ser também uma dimensão da realidade, caracterizado por uma imprecisa questão para uma ainda mais imprecisa resposta. Chegar à questão é o desafio, obter alguma resposta é a absoluta improbabilidade.” »

    Razão tem, pois, o Henrique, quando remata: “Acho que até hoje essa ques¬tão não está esclarecida.”
    Claro que não está. Nem podia estar, pois que, como se vê, ficou já consagrado que “obter alguma resposta é a absoluta improbabilidade.”

Os comentários estão fechados.