Sexta-feira santa

Este é um post para ouvir.
Primeiro, uma canónica versão do coro final (“Descansem em paz, pernas abençoadas”) da Paixão Segundo São João, de Bach.
Depois, (“Bombé”) o encontro de Bach com o encantatório bater de palmas de um ritual fúnebre africano – fusão miraculosa, meu Deus Nosso Senhor.

Jesus no túmulo, Vladimir Borovikovsky

Jesus no túmulo, Vladimir Borovikovsky

Descansa sim, descansa esses teus ossos peripatéticos. Fartaste de andar. Da Galileia a Jerusalém, bodas em Canaã e jejum no deserto, em bem-aventurado passeio à mais Alta Montanha até sobre as águas caminhaste. Descansa-me esses ossos, a carne e os músculos. Deita-te na cova húmida, fecha os olhos e fala. E ensina-me também a descansar. Fecha na minha cabeça as portas do inferno e ensina-me o amarelo, o dourado caminho para o paraíso.

Vais dizer-me que são teus os anjos da ressurreição, que não choremos nós por ti, por que já basta chorares tu por nós. Mas amanhã, bem sei, voltarás a partir. Deixas-nos, deixas-me, e hás-de dizer outra vez que tens na tua casa grande, a de eterna luz, um quarto e uma cama à nossa espera. Com lençóis de uma absoluta alegria, júbilo dos nossos olhos, feroz volúpia dos nossos ouvidos. Não dizes, mas sabemos: é tão fácil chegar lá. Basta que nos deixemos crucificar.

E agora ouçam o Monteverdi Choir
e os os English Baroque Soloists, dirigidos por John Eliot Gardiner

E  aqui, a fusão concebida por Pierre Akendengué
e Hughes de Coursom no disco Lambarena, com músicos
europeus e do Gabão

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Sexta-feira santa

  1. EV diz:

    Sabe que há um monte de anos comprei Mozart in Egypt e pouco depois este Lambarena, Bach to Africa. Vou mostrar-lhe uma coisa bonita feita há vinte anos por Caniparoli e trazida a cena outra vez este ano – e não é precisa a cruz para poder ver.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Que bonito. Sabe a pouco. Nã descobre o resto?

      • EV diz:

        Não há resto: há restos, pedacinhos da coreografia que é tão famosa que é usada nos concursos de dança: é como a música, mistura a dança clássica com a africana e é preferida. Eu via-a inteirinha. Mas conto-lhe uma história – não há ficção que chegue para a realidade.

        O muito jovem Cani­pa­roli, bailarino em início de carreira, conhece Evelyn Cisneros, bailarina em início de carreira, são colegas e são logo os melhores amigos e mais não digo.

        Ele cresceu e para além da dança, fez-se coreógrafo; e ela cresceu e fez-se bailarina principal da companhia. E o que aconteceu não sei, mas sei que ela casou com um outro colega. E sei que Caniparoli queria fazer-lhe uma coreografia inesquecível e não tinha música até ter ouvido Lambarena. Mandou vir especialistas em dança africana e zás, saiu este grandíssimo sucesso, que agora celebra os seus vinte anos, para fazer justiça ao talento de Evelyn.

        Vitória-Vitória acabou-se a história!

  2. adelia riès diz:

    Partilhei.

  3. nanovp diz:

    Caiu bem no dia de hoje…

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