Sou Quixote, Sancho e Pança (e Rocinante e quem sabe se Russo)

Quixote

O Manel que me perdoe, mas eu venho aqui falar de uma editora quase tão boa como a dele. Na verdade, uma editora que tem autores inesquecíveis, como eu, entre outros – isto, do meu estrito ponto de vista, uma vez que sou inesquecível para mim próprio (tal como Cervantes se auto-cita na sua obra-prima, não lhe fico atrás). Editora que faz, além do mais, 50 anos: a D.Quixote, fundada na primavera de 1965 por Snu Abecassis e hoje parte do enorme grupo Leya.

Mas só falo da editora porque ela teve a ideia de reeditar o livro que lhe dá o nome – O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha – numa cuidada, competente, sóbria e já conhecida tradução de Miguel Serras Pereira, que na sua advertência cita, e bem, Borges – “as grandes obras são as que resistem às más traduções”, o que não é de todo o caso deste volume – e com o atrativo de ter uma interessante introdução de Maria Fernanda Abreu feita nos 400 anos da publicação da obra (cuja primeira parte é de 1605 e a segunda de 1615), onde se revisita a influência e impacto do grande romance espanhol na literatura portuguesa.

Não vou contar o enredo do livro, porque todos o conhecem… sem o conhecer. O D. Quixote que devemos a Cervantes e ao facto de ele ter perdido a mão esquerda (e não a direita) na batalha de Lepanto (1571), sob as ordens de D. João de Áustria, meio-irmão de Felipe II de Espanha (I de Portugal); batalha naval em que a Liga Santa derrotou de tal forma o Império Otomano que deu a má ideia ao nosso Sebastião de marchar para a morte no Norte de África e permitir ao Filipe ser I por cá, o D. Quixote, dizia eu, lê-se de formas diferentes de cada vez que se lê.

Aquilino Ribeiro, que não traduziu, mas apenas adaptou a obra, dá-lhe um tom que este volume não tem. Este é tão fiel quanto se pode ser a um Cervantes cheio de requebros e ditos, plebeísmos e regionalismos. Vejam o exemplo logo no início de forma a aquilatar a diferença: “Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me” (Miguel Serras Pereira) ou “Num certo lugar da Mancha, o nome o direi amanhã” (Aquilino Ribeiro, citado de memória porque não sei onde para o raio do livro).

O mesmo se pode fazer da interpretação de quem é, o que significa e o que pretendia Cervantes com o seu engenhoso Fidalgo. Borges, Kundera, Kafka, Thomas Mann, Nabokov e muitos outros, não esquecendo o cervantista Dostoievsky, todos e mais alguns têm teses, pistas, análises para todos os gostos.

Do que ninguém duvida é que Cervantes fez o que se pode considerar o primeiro romance de humor, o primeiro romance moderno, o primeiro romance polifónico e, ainda, o primeiro romance realista.

De forma mais humorada e burlesca na primeira parte e de modo mais recatado, sério e quase filosófico na segunda parte, o cavaleiro da fraca figura, com um alguidar de barbeiro como capacete, Quixote é a busca do ideal e Sancho a sua negação, no sentido em que Quixote e Sancho são a mesma pessoa, os dois seres em que se separa cada indivíduo – o espiritual e puro e o material e sujo. Aliás, no caso de Quixote, este nem é o nome real no próprio romance; a personagem real chama-se Alonso Quijano, pelo que Quixote é uma espécie de nome simbólico da demanda que Quijano se propõe fazer.

O seu cavalo Rocinante será imaginário (há um poema de António Machado que diz tudo sobre cavalos imaginários (Era un niño que soñaba un caballo de cartón/Abrió los ojos el niño y el caballito no vio) que mesmo depois de devidamente apanhados se escapam. Para dizer o que o rapazinho não voltou a sonhar até ao dia da sua morte, quando já era velho (Y cuando vino la muerte el viejo a su corazón preguntaba: Tu eres sueño? Quien sabe si despertó!). Como Machado, talvez o maior poeta espanhol coloca, quem sabe se a vida é o sonho da morte que estamos a ter e do qual não nos lembramos ao acordar?

O asno onde se escarcha Sancho é um jumento passivo (“mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube”, já houvera escrito Gil Vicente na Farsa de Inês Pereira, justamente quando o marido a leva às cavalitas até ao amante, cantando com ela “assim são as coisas”). E o jumento Russo que leva o escudeiro é tão prudente e realista como quem o monta. Leva, não derruba…

Resta-nos, como personagem principal, Dulcineia de Toboso, a imaculada amante, o desejo da pureza o ser inatingível. O sonho e objeto da demanda. O que resta da destruição tão meticulosa quanto humorística dos romances de cavalaria.

A fraca figura de D. Quixote somos cada um de nós, que passamos a vida a lutar contra moinhos de vento, gigantes imaginários. “Sou velho, toda a vida tive problemas, mas a boa notícia é que a maioria deles nunca existiu”, escreveu Mark Twain. Eis os gigantes imaginários de cada um, que não passam de moinhos.

Sanchos, também somos, sempre que nos acobardamos em nome do realismo, da prudência, da vida que vamos vivendo. E somos ainda cavalos sonhados e burros completos que levamos os nossos bens preciosos a quem não os merece – olhem, ao fisco!

Está escrito! Sim, está escrito há 400 anos e muito do que aqui está, com menos génio ou tanto génio como o de Cervantes já estava por Lope de Vega, pelo anónimo que nos deu o Lazarillo de Tormes, pelos clássicos italianos dos séc. XII e XIII pelos latinos do esplendor do Império Romano, pelos gregos de Atenas e da Ásia Menor, pelos autores da Bíblia, ou da Saga de Gilgamesh e ainda pela oralidade das nossas tradições.

O mal dos livros novos é o tempo que nos tira para lermos os clássicos. Mas eles dizem todos o mesmo – novos e antigos – porque a natureza humana é mais antiga que os livros e mais imutável que os moinhos de vento que Quixote combateu. O que interessa é o modo como nos dizem, a forma como Miguel de Cervantes Saavedra, de seu nome completo, nos interpela.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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12 respostas a Sou Quixote, Sancho e Pança (e Rocinante e quem sabe se Russo)

  1. Pseudonymum diz:

    Muito bem!

  2. Amável Louro diz:

    Extrato de “Brisa Africana”:
    Nascido em Angola, Miguel era uma criança feliz. Nasceu numa praia praticamente deserta chamada Quicombo e veio a Portugal com tenra idade. Quando chega a Faro, fica um bocado admirado com tudo o que vê, como era estranha esta terra de gente grande. Era tudo muito cinzento, os homens usavam chapéu, as mulheres todas tapadas, tão diferente da sua terra onde a roupa era parca, as negras de Quicombo tinham as mamas à mostra, usavam um “kimono”, que era um trapo que enrolavam por debaixo das mamas, fazendo uma espécie de saia comprida, os homens usavam calção.
    Em Faro, todos o olhavam como bicho-do-mato. Era uma criança diferente de todas as outras, era mais calmo, mais observador, tinha uma forma de olhar diferente, parecia mais adulto, mais introspetivo.
    Dois anos depois regressa à sua terra, já não se lembrando de nada. Vê então com deslumbramento toda aquela alegria de viver. Tão diferente do que se lembrava de Faro. As mulheres praticamente despidas carregavam os filhos às costas, coisa esquisita. Toda a gente andava descalça, adorou a experiência e começou também a andar descalço. Já corria pela praia com os outros miúdos negros, pois… só havia miúdos negros. O único e primeiro branco a nascer em Quicombo tinha sido ele. Por isso era tratado como o “mano branco” e eles, para o Miguel, eram os “manos negros”.
    Rapidamente se esqueceu do continente, pois ali respirava-se vida, era tudo tão livre, tão natural. Juntamente com outros negros e com o seu pai, apanhava conquilhas com os pés. Bem, não apanhava propriamente, pois era muito pequeno para isso, os negros adultos apanhavam, tal como o seu pai e, à socapa, iam colocando conquilhas no pequenino buraco que conseguia fazer, com o seu pequenino pé, na areia daquela enorme e maravilhosa praia com as suas águas caldas, onde os golfinhos se passeavam sempre com o seu sorriso infantil. Existiam vários cardumes de golfinhos que Miguel adorava. Por vezes, passeando com o seu pai pela praia, dizia: – Olha paizinho, como são elegantes, olha… olha agora, parece que estão dizendo adeus com a barbatana. – E para Miguel estavam mesmo, eram os seus grandes amigos da praia, adorava vê-los, eram lindos de morrer. São recordações que ainda hoje guarda na memória.
    À venda na FNAC e livrarias Cultura, no Brasil.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Bravo, bravo.
    Pergunto-me, tantas vezes, nas minhas infrutíferas reflexões se não será antes — o espi­ri­tual e sujo e o mate­rial e puro. Afinal o espiritual, a ideia, tem produzido tanta porcaria.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Vou ler esta nova versão. E apetece-me, depois de te ler, Henrique, comprar um moinho só para ler clássicos.

  5. EV diz:

    Só tenho uma edição, vá, duvidosa e de encadernação francamente feia que comprei nuns saldos do Corte Inglés, noutra encarnação, em Sevilha. Acho que estou a precisar desta.

  6. Fatima MP diz:

    Quixote e Sancho, é a dobradinha que nos salva. Atenção às quantidades …

  7. nanovp diz:

    Nada de novo portanto, mas óbviamente essencial…grande frase a de Twain….

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