Talvez a selfie não seja uma fotografia

A meia-noite encosta-nos ao passado. Não há nada como entrar nas wee small hours para se desatar uma caterva de recordações, um êxtase de infância e disparates de adolescência. E o pior é essa forma congelada de memória a que se chama fotografia. Eu gostava de ter uma como a destes cinco miúdos abaixo, no que parece o meio de um deserto, um baldio, ou talvez o começo de uma duna perto da praia. Os catraios das pontas, pela pose, denunciam o fotógrafo. Há ali mais alguém, outra pessoa que os vê, lhes fala e os fixa. Os três do meio, embalados pelo riso e pela inexplicável felicidade dos bem-aventurados, são a prova de que essa figura fora de campo não os atemoriza, não é nenhuma sombra mecânica na sua familiaridade e espontaneidade.

ZZInfância

Isto é uma fotografia, é memória

 

A selfie é, por definição, a foto de si mesmo. Com um telemóvel, braço estendido, alguém posa de si para si mesmo. Não há meia-noite numa selfie. Nem há um lugar. Quarto ou casa-de-banho, a selfie tem um décor neutro ou minimal por trás. Um braço estende-se e clica (clica-se) para nos vermos. Não é para guardar o tempo, é para que o tempo passe e se esgote nesse acto de nos vermos a uma outra e mais mediada forma de espelho, e também para podermos expor, logo a seguir, esse momento em que o tempo fugiu de nós, não nos oferecendo mais do que a solidão da nossa irredutível individualidade. A selfie é um corpo desmembrado a tentar reconstituir-se em cliques. A selfie sou eu, comigo, de mim, para mim. Não há, digo eu, memória de nenhuma meia-noite numa selfie.

Selfies-Will-Make-Your-Day

E, não obstante, pode ver-se muito numa selfie

É o que dá um tipo pôr-se a escrever coisas depois da meia-noite. Ou andar, nas wee small hours, a pesquisar sereias e selfies.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Talvez a selfie não seja uma fotografia

  1. Mario diz:

    A selfie tem qualquer coisa de deprimente, como almoçar sozinho no restaurante ou sair a noite sem companhia e ficar no balcão a beber cerveja…

  2. A. (Ou a Senhora A.) diz:

    A fotografia tem mais vida. A selfie é só uma mentirinha. E é assim que as pessoas se enganam hoje em dia.
    Um abraço! 🙂

  3. EV diz:

    A selfiezinha em paisagem neutra, e desmembrada, como bem apontou, talvez não seja tão individualista. Só uma pessoa que precisa da atenção/aprovação das outras é que expõe e se expõe assim, às postas ou por inteiro como um peixe na banca do FB e do não sei o que mais.

    Bem caçado, Manuel Fonseca!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bem caçado é essa do peixe na banca do fb… (eu não desgosto do fb, tem graça…)

  4. nanovp diz:

    Pois o problema da “selfie” é mesmo esse “me, myself, and I “…

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