Voltemos aos cemitérios

Maupassant

Tinha esta testa alta, um hiperbólico bigode. Respondia pelo simples nome de romance

Vidas de um editor. Parece que este “erótico francês”, acabado de sair agora em Paris, já a subir nas vendas da Fnac e da Amazon, é que é bom. Este é que vai vender que nem pãezinhos quentes e limpar as sórdidas sombras. E estava eu a soletrar o original – as coisas a que os olhos de um editor devasso se agarram linha a linha – quando me salta, de um esquinado parágrafo melifluamente perverso, um excerto de Maupassant. Lá se foi o erótico para o galheiro, dando eu comigo (e se tenho andado a ver se me encontro) a ler “Notre Coeur”, romance desse tal Guy de Maupassant, que já leva, de escrito, 125 anos.

Leia-se (traduzi eu):

Mas depois de ter conhecido Mariolle, outra coisa a prendia a ele. Amava-o, porém, amá-lo-ia ela com amor? Sem prestígio, sem notoriedade, ele tinha-a conquistado pela sua afeição, pela sua ternura, pela sua inteligência, por todas as verdades e seduções simples da sua pessoa. Ele tinha-a conquistado, porque ela pensava nele sem cessar; sem cessar ela desejava a sua presença; nenhum outro ser no mundo lhe era mais agradável, mais simpático, mais indispensável. Era isso que era o amor?

[…]

Ela tinha sentido o amolecido e bizarro desejo de apoiar a cabeça no ombro daquele homem, de estar mais perto dele, de procurar esse « mais perto » que nunca se encontra, de lhe dar o que se oferece em vão e que se guarda para sempre: a secreta intimidade de si.

E andamos nós à procura do romance perfeito, a querer ler romances, a querer escrever romances. Esqueçam. Regressemos depressa aos cemitérios: romance é o outro nome de Maupassant, “Notre Coeur” o seu título. Maupassant tinha um rosto sólido, grande como uma bola de futebol, um bigode espesso de pontas viradas para cima, uma mosca do tamanho de uma aranha amazónica a pender do lábio inferior. Nem era bem escrever, perseguia a emoção que advém da mais simples realidade. E nem era bem persegui-la, saia-lhe dos dedos que seguravam o aparo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Voltemos aos cemitérios

  1. EV diz:

    Céus! Estamos em maré de exumações… Espere por mim que vou buscar a pá!

    • Já viu bem a classe do fato do homem? Tantos anos depois, bicharada danada e o que sobra é um fato! Será que vale a pena tentar dar o raio de um sentido a isto?

  2. nanovp diz:

    Já não há lugar nos moinhos Manuel, e os clássicos esgotaram-se, tal é a vontade de voltar ao principio para iluminar o que aí vem….

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