A Europa e os afogados horizontais (*)

 

Mar XII

Mar XII

Tenho para mim – o que quer dizer muito pouco – que Ruben A é um dos mais injustiçados escritores portugueses. Talvez porque se tenha dedicado mais a desenhar contos e a pintar memórias do que a desfiar romances. Talvez porque fosse rapaz de boas famílias num mundo cultural ainda hoje construído de preconceitos e de estigmas sociais pintados in sotto dissu. Que é como quem diz que a cultura é feudo da esquerda. Adiante. Dele gosto de quase tudo e admiro, com um pasmo que é só meu, mesmo aquilo que não gosto tanto. Mas de entre tudo o que gosto, e por razões que hão de dar um romance, gosto com um gosto muito especial, ali escondido a “Páginas II“, do seu “Rapaz de Veludo“. Que aliás se fez meu. Mas isso são contas de outro rosário.

Não vos estragarei o prazer de o encontrar, na biblioteca de um editor que já não há, sôfrego como só ele, a dar à costa em Afife. Dele só vos direi que contou ao Ruben, e através dele o Ruben me contou a mim, o que é isso de ser afogado. “A única diferença está no simples facto de caminharem sempre horizontais. Nunca se levantam andam sempre paralelos ao fundo.” De resto tudo é paz e a “calma marinha do seu silêncio“. Ou quase. Porque, tal como acontece ao próprio Rapaz, os afogados que são seus amigos, as crianças dos “gritos pequenos“, padecem de um mal que é só deles. Um mal de quem é morto e lançado ao mar. Ou morto porque é lançado ao mar. Um mal que é uma sede dos diabos. Uma falta eterna de água doce. Uma angústia eterna, oceânicamente imensa, como a da rapariga linda que veio, horizontal, perguntar-lhe, julgo que nos confins do mar dos Sargaços, se trazia consigo uma garrafa de água do Luso.

É nestes mortos horizontais, despenteados de vida, sôfregos de água doce, paralelos ao fundo, angustiados até à maior profundeza das suas almas, é nestes mortos horizontais que penso quando penso no cemitério marinho de que se faz o mediterrâneo de Lampedusa. Penso neles, na desesperada pulsão de vida que haveria de conduzi-los à morte, na estrada que vai da pardacenta Eritreia, da violenta Síria, da falhada Somália até ao cemitério azul para onde se lançam na esperança mais desesperançada que me foi dada a conhecer. Penso neles, na sua vida, tão frágil de amanhãs, que se faz suicida. E penso na minha Europa. Penso nesse magnífico projecto de paz que há muito vem perdendo o Norte. Penso na Europa que era das luzes, que sonhou (ingenuamente) ser da igualdade e ser da fraternidade, que foi mesmo dos libertadores liberalismos, das sociais democracias e das teias protectoras por baixo de quem ninguém, em dia nenhum, jamais cairia. Penso nessa Europa que era, e nesta que é, em acelerada decadência, condomínio fechado perdido numa cidade imensa que é um mundo tornado subúrbio. Penso nesse continente que é o meu, que é ímpar em termos civilizacionais e que se lançou à deriva numa louca deriva. Penso nessa jangada de pedra que por dentro se rasga de norte a sul, e que, vista ainda mais de sul, cada vez mais parece uma fortaleza trancada, agarrada a um tempo que já não é.

Penso em tudo isto e não vejo, à primeira vista, qualquer solução. Chegam a fazer-se concretas as palavras desse generoso e impenitente pessimista que foi Ernâni Lopes e que, antes de todos, viu mais longe a insustentabilidade dos desequilíbrios demográficos da Europa que construíra e onde vivera. Penso nas aulas cinzentas daquelas manhãs de faculdade e ganham sentido todos aqueles profetizados cataclismos migratórios que à época me não faziam sentido algum.

Penso em tudo isto e, repito, não vejo solução óbvia.

A não ser, precisamente a mais óbvia de todas. A de aceitar que o vento não se pára com as mãos, que Mundo sempre se fez e sempre se fará de migrações, que até a Europa sempre encontrou refúgios para onde migrar nos momentos mais negros da sua história.

Talvez a única saída seja mesmo essa. A de tomarmos lucidamente em mãos a reconstrução de uma Europa que, para ser verdadeiramente Europeia, não se fará exclusiva nem maioritariamente de Europeus.

Mas, isto dito, não se ponham já a salivar ao som dos multiculturalismos assépticos. Haverá, concedo sem grandes reservas, uma Europa sem europeus. Mas a Europa sem herança e sem matriz cultural Europeia (a tal da constituição que não foi) não será nem verdadeiramente europeia, nem tão pouco o porto de abrigo com que sonharam, em vão, os afogados horizontais de Lampedusa.

 

(*) Publicado na Visão em 30.4.15

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a A Europa e os afogados horizontais (*)

  1. rita vaz pinto diz:

    Pedro

    Primeiro, o pasmo não é só teu! Cada vez que abro qualquer um dos volumes das páginas transbordo com as palavras de uma alma do tamanho do mundo. Uma alma que muitos invejaram e por isso mal amaram. Um colosso de sentimentos, um ser único que tinha consigo a VIDA, o sentir forte e sensível de tudo e misturava magicamente esses ingredientes para nos mostrar que a afinal é isso que importa: apalpar a terra, sentir o mar,nadar nu,deixar que tudo se entranhe e que nos entranhemos nós também no tudo.Que nos espantemos!

    O rapaz de veludo, que se tornou teu e que “roubo” tantas vezes quando quero ter coragem de entrar pelo mar adentro.E tantas outras passagens e sentimentos que continuo a ler como se precisasse de respirar.

    Os afo­ga­dos hori­zon­tais de Lampedusa. Pobres que não têm o Sragaço. A Europa essa não consegue amparar os mais fracos.

    Pena que tanta gente mande, dite, convoque, assine, fale (sem nada dizer) mas que se tenha tão pouca “grandeza”.

    Essa ninguém a tira ao nosso querido Ruben!

  2. Não há salvação, nem sequer estética, para esse sinistro cemitério azul. Bela elegia.

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