A menina Coralie

 

Coralie Bickford-Smith 1

Coralie Bickford-Smith 1

Os livros também se comem. Com o nariz, claro. Eu já comi um, inteirinho. Um cheiro de papel, de madeira e cola, de um tempo que já lá ia. Estão a ver-me? Garoto, de calções, de olhos fechados a inspirar com toda a delicadeza do meu nariz de rapaz o odor de um livro que era uma doce memória dos tempos que passámos juntos? Estão a vê-lo? Um livro de capa verde, dizeres em alemão, e uma espantosa colecção de “bichos” que eram a constelação de saberes do meu avô? Sentava-me ao seu colo, herói como se já não fazem, uma mão no livro, outra no calor incondicional que era o mapa da sua mão. E ó para nós a percorrer, veredas a pique, picadas sem fim, caçadas imaginárias e imaginadas que iam do Irão à Escócia, da Camarga às Terras do Fim do Mundo. Aposto que não sabem o que é um Anas Boschas. Ou uma Cacabis Rufa. Paciência, agora não tenho tempo para vos explicar até porque não é sobre nada disto que vos quero falar.

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Coralie Bickford-Smith 2

Os livros também se comem. Com os olhos, antes de se comerem com o nariz. E eu tenho uma admiração profunda por quem assim os cozinha. Bonitos à brava, estilosos, silenciosos ou ruidosos, minimalistas e barrocos, pintados a mil cores ou excluindo quase todas, ásperos ou macios, de capa dura, de capa mole ou de capa e espada a fazerem-se nostalgia da capa à contracapa.

Coralie Bickford-Smith

Coralie Bickford-Smith 3

E entre os que muito admiro, uns há que admiro ainda mais que todos os outros. Um deles, vá lá perceber-se esta tendência, é uma uma. Coralie Bickford-Smith é designer na Penguin e cozinhou algumas das capas mais bonitas que as minhas estantes já viram. Isto anda para aqui um alvoroço desde que a descobri. Tenho livros com idade para ter juízo apaixonados pelos livros pintados da Coralie. E se me disserem que não acreditam, passem cá por casa um destes dias. Hão de encontrar, ali na prateleira de baixo, um Orlando Furioso por só saber falar Latim a fazer olhinhos a uma Madame Bovary toda rosas e roxos. Palavra de caçador.

Ah! E lá para Agosto vai publicar um livro só seu. The Fox and the Star.

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Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a A menina Coralie

  1. Não basta saber, é preciso poder. Não basta poder, é preciso saber. Quando se sabe e pode, que lindo que é uma pessoa chamar-se Coralie.

  2. EV diz:

    A cobiça é um pecado. E quem incita ao pecado é que tem a culpa! Eu, no seu lugar, batia já no peito.

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