À Picasso

Era noite há 26 anos. Ia na Ponte Velha, no passeio, em direcção ao restaurante onde jantaria a melhor sopa de pedra do mundo. Em Tomar, claro. Na outra sala, o dono assava leitões com uma máscara de gás da segunda guerra mundial. Não estava frio mas a humidade sentia-se. De repente, caí de joelhos e não foi uma revelação, nem Deus veio ou nossa Senhora sobre as águas do Nabão, nada. Perdi a força. Foi isso. Logo depois, o mesmo, mas quando subia para o quarto. Fiquei a rir, no degrau das escadas, de joelhos como um penitente – não me magoei em qualquer uma das vezes. A humidade sentia-se e pronto.

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É verdade que de vez em quando ficava exausta, nem tinha força nos braços, e levar a carteira já não era suportável, ou lavar o cabelo sem intervalo para aliviar o pescoço, os ombros, os braços. E pensava, gente maluca, fazem este chão duro, pedra sobre cimento, onde nada amortece, que é feito dos soalhos de madeira? Haja paciência para tanta estupidez… Isto dá cabo de qualquer pessoa!

Passaram-se anos e erros de avaliação até à manhã de pânico em que fui fazer a electromiografia: o ecrã do computador à minha direita ia registando as respostas do diálogo com o meu corpo – uma língua estranha de picadinhas e choques bebés. Não era ELA. Que grande alívio.

Então. O meu exame neurológico não é simétrico. Os relatórios das minhas ressonâncias são livros onde se enunciam defeitos de fabrico degenerativo, mas o produto não pode ser devolvido e trocado, ainda que, como todos os produtos, os perfeitos também, seja um dia retirado de circulação. E eu gosto dele, defeitos incluídos.

Devia ser rigorosa e prometo que um dia vou ser, mas como os meus gelados, terríveis bombas de açúcar, as batatas fritas, e não tenho treinado.

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Está tudo praticamente bem, ainda que, por vezes, não me sinta, o movimento não me obedeça. Detesto a dormência e faço disparates. Estava na passadeira, no ginásio, e caí. Pensei que se pensasse que estava a andar apesar de ter uma grande perda de sensibilidade, continuaria a andar. Foi no dia em que descobri que mind over matter pode ser verdade e também mentira, em simultâneo: caí muito completamente.

Mas há literatura na queda do homem, poesia, e uma ideia edénica que fica e a memória de Deus, o mundo inteiro e a sua alegria tão grande que até a tristeza lhe cabe, e nos dias contados, a construção da vida. E isto, o privilégio da folha branca, quero dizer, uma forma de amarmos a queda enquanto nos levantamos, à Picasso, he can who thinks he can, and he can’t who thinks he can’t. This is an inexorable, indisputable law.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a À Picasso

  1. Luísa Tavares de Mello diz:

    Não é só a ELA que nos mata e tira capacidade de exercermos sozinhas o direito de ir e vir.
    Algumas coisas que unem como a ponte velha, a sopa de pedra e Tomar. O resto é neurologia e medo muito medo.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Esta é uma entrada a pés juntos. Há uma velha e adorável canção brasileira onde se canta “ali onde eu chorei, qualquer um chorava”. Aqui, onde a Eugénia oscila, até Hércules caíria.

    • EV diz:

      Não, Manuel Fonseca, sou uma mariquinhas indisciplinada… mas um dia vou ser hercúlea!

  3. nanovp diz:

    há pois “tanta ” poesia na queda de um homem, a vida só se toma toda junta, com maleita e açúcar…

  4. A. (Ou a Senhora A.) diz:

    Gostei tanto da ponte… 🙂

  5. Mario diz:

    Recorra ao osteopsta da Maria do Céu Brojo, parece que e artista (mas so se for giro) 🙂

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