Ainda a Natália Engomava, Entrou o Osteopata

Salvador Dali – “Honey is Sweeter than Blood”

Salvador Dali – “Honey is Sweeter than Blood”

Durmo como lajedo «prantado» há séculos na “Estrela”. Bem podem almejar interromper-me o sono que todas as tentativas saem goradas. Foi preciso muito engenho e teimosia, havendo sismo a fazer tremelicar objetos e paredes que arribou de Lisboa até Coimbra onde, na época, tinha a minha rica cama, para os pais me acordarem. Quando espertei e entendi ter de ir para a rua, a minha preocupação foi mudar para um pijama por estrear que dormia na gaveta. Também ele não havia dado por nada. Chegada à rua, o perigo havia passado. Os pais concluíram que a educação de menina obediente ao bem parecer pecara por excesso. Devo a tal sismo a minha alforria de regras ociosas. Daí em diante, foi um «tasse bem» que dura até hoje. Algumas excentricidades foram-me permitidas. E como delas fruí e fruo…

 

À conta duma perna que deu de si, enfiei no «bucho» três embalagens de antibiótico. Melhoras irrelevantes. Fiz um doppler à dita – nada! Fui vista por dermatologista escolhido a dedo. Extraiu-me amostra para análise, que deve ter fugido para outras paragens mais sãs pois a colheita não chegou ao destino. Vai daí, mandei às malvas o resto da terceira embalagem de antibiótico e decidi que não se passava nada. Mas passava.

 

A amiga/irmã com problemas graves de saúde, em cansaço por ser recambiada de médico para médico, foram-lhe recomendadas as mãos e o saber de osteopata conhecido: trata dos jogadores de Benfica, bem, pelo resultado, inclui a equipa da Terapia do Sono e a do Ginásio Clube Português. Mais me informou: ia a casa do paciente conhecendo quem o nomeara e tinha-a deixado leve como pena. Após ter visto a mãe, senhora de 89 anos, o andarilho restou num canto e a senhora quase voava. Também quis as benditas mãos, constatados os factos com estes que a terra um dia irá papar. Marcada consulta para ontem.

 

Ainda a Natália engomava, abro a porta a quem os de antanho chamavam ‘endireita’. Advogado como formação primeira, rapaz para a minha idade, pais médicos, só defendeu inocentes, ladrões e quejandos por cinco anos. Não era aquele o seu futuro e fez aprendizagens, concluiu graduações cá, mais ainda nos Alguidares De Baixo da «estranja».

 

Entrou com maca enfiada num saco. Breves cumprimentos e ‘bora lá’ que o tempo urge. Montado o tabuleiro rígido, estendi-me de barriga para baixo. Mexeu em cada ossinho que eu sabia e noutros que desconhecia. Colocou-me em posições de espantalho e nalgumas inspiradoras para fins distintos. Ia-me explicando o feito – nervos, tendões e outras miudezas precisados de alinho. Gravíssimo o estado da minha coluna. De tão direita e esticada (dezenas de anos de ginásio) é culpada de tensões que sinto. Pior: se não a alivio ainda fico corcunda. Ginásio, sim, tendo ele conversa prévia com o treinador (à borla, sublinho).

 

Arrumados os pertences, negou o solário que eu havia previsto para ontem e negou também qualquer contrariedade que a tarde me trouxesse. Despedidas e coisa e tal, “daqui a duas semanas cá me tem”, “telefone-me depois de amanhã para me informar do resultado”, foi-se com paga inferior à justeza.

 

Como fiquei? _ De tão relaxada, sobreveio modorra de truz. Deitei-me na ‘minha rica caminha’ por volta das 15.30h e acordei hoje às cinco da matina.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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2 respostas a Ainda a Natália Engomava, Entrou o Osteopata

  1. Mario diz:

    O rapaz era giro? Também ajuda no resultado final 🙂

  2. Completamente rendida a este texto !!! sabendo de antemão que tudo foi assim… adorei.

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