Doente de Ti

Tejo

Por ora, é esta a literária maleita que me mastiga os rins:

 

Olhos de cão azul.

 Ele esperava às dezassete horas de cada terça-feira. Era dos poucos que não usava guarda-chuva. Decidira-se a enfrentar o manto nuvioso com uma gabardina comprada em diálogo de gangster. O cabelo encharcado era a continência que fazia à História do país, da cidade, do rio, dos loucos lançados ao mar, dos exploradores de mundos, dos marinheiros, da Âncora que agarrava as casas ao céu mas jamais existira no seu coração.

Para ele, como para os outros tristes felizardos que conseguiam trabalho que se visse, o cacilheiro flutuava todos os dias à mesma hora. Partia do Terreiro do Paço, o rectângulo que rompera o círculo do mundo havia seiscentos anos, rumo à outra margem duma rapariga chamada Tejo.

Os guarda-chuvas da multidão palpitavam como orquídeas, flores negras empaladas num coro de aflitos. Um aguaceiro em Lisboa era um acontecimento, mas os despojados e os engravatados festejavam cada tristeza como astrólogos em busca de clientes. Apressava-se o passo, as portas fechavam-se, o ferry ruminava um protesto e lá seguia, água abaixo, rio acima.

 Os guarda-chuvas, melros-pretos, recolhiam-se do frio. Soluçavam as gotas enquanto os donos se iam acotovelando nos assentos. Cá fora, pela proa ou no piso de cima, mantinham-se ele, os vencidos da vida e os namorados traídos, à espera de verem a água das nuvens penetrar-lhes a pele e lavar os gestos tontos, as frases torpes, os beijos búzios, os leitos errados, o fim da adolescência.

Parecia um velho, de barba a rebentar grisalha, os olhos piscando ao sabor do vento, encharcado, obstinado, a guerrear o tempo, D. Quixote de Cacilhas. De vez em quando, acercava-se da borda e espreitava para a espuma, a pensar se estaria melhor no fundo do rio. Ansiava por esse silêncio, uma bolha de ar ocasional, enfiado em sobretudo de algas, de sapatos esculpidos na rocha e um peixe balofo a invejar-lhe os dentes feitos corais. Mas para essas coisas da morte era preciso coragem.

 No breve labirinto de arrepios, uma flor clara eclodiu. Sobrevoou as cabeças dos vencidos, conferiu os pesadelos dos namorados e parou junto às escadas. Era um guarda-chuva branco como barriga de freira, e o seu efeito no pelotão de abrigos negros era o efeito de Busby Berkeley numa parada do doutor Salazar. Foi então que a viu.

Segurava o guarda-chuva como se de uma sombrinha se tratasse e a luz tivesse descido à cidade para a beijar no Cais das Colunas. Estava de costas, de ventre encostado ao corrimão, e o vestido simples fazia os rostos dos homens suspirar por musseline. Mimando a gola de uma blusa violeta, os cabelos curtos pareciam inventados por alquimistas para fazer ciúmes aos monges. Era alta, mais alta do que as belezas latinas consentiam. Era magra, mais magra do que as ancas do mediterrâneo autorizavam. A chuva continuou a tinir no lombo do barco, mas sombrinha, blusa e cabelos romperam as nuvens, tentando despertar o sol da sua longa sesta.

Só quando o ferry se aproximou da outra margem é que ela se virou. O nariz de traço cinzelado, comprido em espírito, perfeito na majestade, enquadrava-se numas supimpas maçãs do rosto, antecipando o riso perante os esforços da velhice. Era uma beleza de Vermeer, à prova de folhetins como a idade, ou o desconsolo.

Os olhos, porcelana do mar da China, eram tão frágeis que se poderiam quebrar à primeira brisa. Mas o vento era forte, a chuva aumentou e ela pareceu levitar na maré de casacos cinzentos e botas de chumbo.

 Ele passou a esperar por ela todas as terças-feiras às cinco horas. Fazia-o sem a ilusão de intervir. Não se pode participar num quadro valioso, pensou, apenas admirá-lo à distância certa. Continuou a vê-la, do mesmo canto do mesmo andar da mesma embarcação. Foi nessa moldura que ela o foi atormentando.

 

Umas cinco horas de uma terça-feira, ela não aparecera. Ele começou a apanhar o barco todos os dias às cinco horas. Ela não aparecia. Ele apanhou o barco todas as horas de todos os dias, como um pêndulo sem atrito. Passou a conhecer cada onda e baixio. Ela não apareceu.

 

Por fim, três semanas depois, ela voltou como se nunca dali tivesse saído. A tela recompôs-se, e ele não quis perder de novo o fulgor dos tons pastel. Seguiu-lhe os olhos, o branco guarda-chuva, o cabelo astral, e viu que ela morava numa casa doce, na Aroeira, antes das vivendas dos banqueiros e dos políticos. Como furtivo galeão, fez o percurso inverso, cruzando o rio para fazer sombra dos leves passos dela até ao Hospital de São José, onde as janelas denunciavam uma estagiária com reputação de médica e carisma de directora clínica. A ideia de ela curar pessoas apaixonava-o. Afinal, que lhe fazia ela nos últimos quatro meses?

 Quando o sol voltou a sorrir, tentando roubar-lhe o brilho, o quadro ocultou a caxemira e consentiu os linhos, as sedas, a pele. A pele tornou-a humana, e paralisou-o. Já não podia voltar atrás.

Sentou-se em cima do seu desconforto, tentando escondê-lo, e escreveu-lhe esta carta. Nela, roga-lhe que o deixe esperar por ela em Cacilhas, à saída do porto, sem mais nada do que a vontade de a conhecer no dia seguinte, às cinco horas de uma terça-feira. Se assim for, ele viverá para ela. Se não, viverá dela. Preso para sempre à memória dos seus olhos de cão azul.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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2 respostas a Doente de Ti

  1. Paula Santos diz:

    E que o amor continue em todos os cais desta vida a aguardar por quem tenha a coragem de participar nos quadros valiosos que trazemos dentro do peito.
    Sei que sou pirosa mas…se não escrever, desapareço. ;-).

  2. Qual pirosa qual carapuça, Paula. Obrigado por participar nesta tela.

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