Hérnia L4 – L5

hernia51-4

 

Vou a subir os Alpes,
eu e os meus comprimidos,
brancos, magníficos.

Rolamos em direcção aos triângulos brancos
desenhados a leste ainda longe daqui.
Não tarda entraremos nos desfiladeiros escarpados
onde ainda permanecem, esfarrapados
pela Primavera, pedaços brancos
de cristal por derreter.

Apequenam-me, os desfiladeiros escarpados,
a mim e aos meus comprimidos,
brancos, magníficos.

Passaram-me as dores com a antecipação,
apenas não passou o medo das dores
e a lembrança das dores. Nunca passa.
Nem no meio da paz dos picos,
nem quando deslizamos velozes nos caminhos,
eu e os meus comprimidos,
brancos, magníficos.

Houve um tempo em eram todos brancos.
Todos tão brancos como o branco o é,
antes de atravessar o cristal que o diverte em cores.
O branco dos Alpes julgava-se eterno.
Presunção dele. Agora desaparece. Recua
como o cabelo; enfraquece como os ligamentos
e os músculos. E o juízo.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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2 respostas a Hérnia L4 – L5

  1. hmbcm1956 diz:

    Mas a verdadeira hérnia alpinista é a L5-S1

  2. riVta diz:

    Só de olhar dói.

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