Hypsoline

 

la femme

Já me tinham dito que a cena francesa é que estava a dar. Fui ouvir e estes “LA FEMME”, barrocos, com uma ligeira hostilidade punk, tocaram a minha veia desconfiado-lírica. Cantam na língua deles, em francês – o que acrescenta uma raiz de sangue emocional ao que dizem – e o que dizem não é parvo, nem superficial. “Sur mes hanches tu t’épanches”, ah, pois é. Caramba, vêm de um país que teve Lautréamont, Rimbaud ou Baudelaire. Por mais que o liceu lá esteja a mesma merda que cá, há coisas que ficam! E a música deles, no seu melhor, anda ali numa zona de sono: levou-me, digo-vos, à minha primeira experiência de sonambulismo (“It’s time to wake up” é outra delícia a ouvir já).

Vou já deixar-vos com o vídeo de “Hypsoline”. Mas  bem podem passar uma bela hora de domingo a gozar o último álbum, “Psycho Tropical Berlin“. Se não puderem, atirem-se pelo menos a “Le blues de Françoise”. A casa agradece.

lafemme

Estão aqui, neste “Está Escrito” improvisado – quem é que se baldou, quem é que se baldou? – só para nos deliciarmos com quatro versos da longa letra de “Hypsoline”, a canção que mais me apaixonou:

Infidèle amour tendre
Regard noir mémoire blanche
Sur mes hanches tu t’épanches
Et soudain tu t’élances

que é como quem diz:

Amor infiel e terno
Olhar negro memória branca
Sobre minhas ancas te derramas
E tão pronto investes.

 

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

6 respostas a Hypsoline

  1. llopes49 diz:

    E eu a pensar que não ia gostar,afinal gostei mesmo. Obrigado.

  2. EV diz:

    Já reparou, Manuel Fonseca, que desde a literatura (no século xix então…) à música se faz o elogio amoroso da infidelidade como se a fidelidade não pudesse ser um jogo de sedução tão ou mais sexy. As pessoas são um mistério!

    A música é gira e a letra é melhor – não conhecia.

    • Mas há poetas da fidelidade. Lembro-me de um, o Rossellini, que provou no seu cinema ser a mulher casada e fiel a maior e verdadeira aventureira do século XX. Isso sim, é uma bela transgressão, dizia o Eric Rohmer.

  3. nanovp diz:

    Não conhecia, gostei!

  4. já tinha passado por eles e tiveram o mesmo efeito em tudo semelhante em mim = ) A-DO-RO

Os comentários estão fechados.