Lamuriar. De profundis, que tem mais graça

Vou lamuriar-me: estou muito constipada.

Take 1:

Andava eu a embandeirar em arco com a ausência de constipação ou afim, maleita que sempre me derruba quando zás! Ontem comecei a estranhar-me. Melhor dito: a reconhecer sintomas de corpo e nariz. Ainda pensei: nada disso é só uma friagem que me apanhou. Os adormecimentos no sofá com pouco agasalho ou variações descuidadas de temperatura. Mas ontem à noite ela caiu. Implacável. Sobreveio um febrão que me acordou à primeira volta de um sono pouco profundo. Tiritei madrugada fora entre chá quente e um antipirético fora do prazo que até agora ainda não deu sinal de quer fazer-me mal. Eu podia ser poupada a estas coisas, que os deuses muito têm judiado comigo e era agora tempo de me deixarem em paz, marioneta de fios partidos sem histórias que contar. Mas, claro, li o meu Shakespeare e sei que they kill us for their sport. Há-de quem se compadeça do meu andar olheirento e venha perguntar, então que tem? Nada, então não se vê logo que não tenho nada.

Take 2:

Raios. Pensava, oh quão crédula, que um serão a chá muito quente e outros agasalhos iriam afastar para longe estes arrepios, dores e tremores. Amanheci bem pior,  pronta a trocar a alma por mais quinze minutos de lençóis. Não se fez negócio e bem amargurei da minha inabilidade para tais trâmites. Nisto do comércio metafísico sou, como em muita coisa, uma desastrada. Ao menos o dia parece fácil, é empurrá-lo e eis que se cumpre. Escrevem-me mails de melhoras e de conselhos, mezinhas e beijinhos. Eu sei que uma canja iria melhor com este estado mas agora vou é dormir.

Take 3:

De mal a pior, agora é a tosse e o lacrimejar e o nunca mais isto me passa. Eu sei, oh sei muito bem que o guardar o leito seria o que de mais sensato me deveria impor-se mas não há como. Mas já nem durmo, acho que não, da noite passada tenho uma memória de um chá com os meus lobos. Vieram bafejantes mas eu não estava para tangos. Esta constipação já parece um capricho dos deuses. De tão diversificadas e repetidas maneiras ando eu a expiar culpas que esta bem se escusava. Um martírio inútil, coisa sem alma nem glória é uma constipação banal.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Lamuriar. De profundis, que tem mais graça

  1. Pedro Bidarra diz:

    Se é para escreveres assim, não te desejo melhoras, antes mais constipações

  2. EV diz:

    Gengibre, Ivone, não há gripe nem constipação com gengibre. Um bocadinho, todos os dias.

  3. nanovp diz:

    Isso já não vai com cházinhos Ivone…

  4. Escrever é Triste diz:

    Ivone, peço-lhe, por amor ao blog, um sacrifício: conserve essa constipação em alta durante toda a semana. Não queremos aqui ninguém horrivelmente saudável, pois não?

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