Mãe (1939-2013)

Mãe

Fui vê-la.
Sorriu.

O seu olhar
distinguia melhor
o invisível de mim.

Peguei-lhe na mão,
voltou a sorrir.

A ela disse
o meu nome,
a idade
e apertei-lhe
de novo
as duas mãos.

Com os olhos vagos
sem me ver
cantou baixinho
uma canção

e esperei.

Esperei
que os seus olhos
se quisessem cruzar
com os meus.

O tempo passou
e ao passar
vi um anjo
entrar na sala
devagar.

As nossas mãos
feitas de raízes
levaram tempo
a despegar.

O anjo pousou.

Sem se apressar,
pegou-lhe na mão

para a levar.

Estoril, Maio de 2015

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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24 respostas a Mãe (1939-2013)

  1. Helena Sacadura Cabral diz:

    Só consigo dizer lindíssimo!

  2. Luisa diz:

    O seu olhar distinguia melhor o invisível de mim …. esta frase é perfeita. As mães têm esse poder sim… obrigado pelo poema que é lindo…

  3. Paula Santos diz:

    Não sei como lhe explicar as lágrimas que me acompanham neste exacto momento. Talvez a saudade da minha Mãe, talvez a tristeza todos os dias arrumada que me acompanha. Talvez tudo isso e mais o que não consigo ainda dizer. Muito muito bonito. Obrigada. (Se me permitir levarei para o meu fb, identificado obviamente)

  4. EV diz:

    Uma mãe é uma certeza absoluta.

  5. Maria Romão diz:

    Uma mãe embalada por um anjo…

  6. A. (Ou a Senhora A.) diz:

    Simplesmente lindo! 🙂

  7. Ana Vidal diz:

    Tão bonito, Rita. Beijo

  8. Mãe é aquela coisa difícil de descrever.
    Acho que descrevi bem a minha neste post:

    http://vadiomental.blogspot.pt/2014/10/derek.html

  9. Lucy diz:

    Bonito, Rita. Muito “tocante” Beijo
    Lucy

  10. João Pedro Guimarães diz:

    Muito bonito! A minha Avó, antes de morrer, via muitos anjos. À minha irmã que a visitava sózinha perguntava, com frequência, “Quem são essas crianças que tens ao lado”? Um dia, um deles pegou-lha na mão e levou-a (elevou-a). JP Guimarães

  11. Julia diz:

    Muito mais que muito bonito Rita, grande beijo Julia

  12. Manuel S. Fonseca diz:

    Que haja sempre um anjo para a nossa mãe, a nossa mão.

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